Foto: Haiyun Jiang/NYT
O presidente da China, Xi Jinping, pediu nesta semana a reabertura do Estreito de Ormuz - suas primeiras declarações desse tipo desde que o Irã fechou efetivamente a via estratégica no mês passado, em resposta a ataques dos Estados Unidos e de Israel contra seu território.
Xi fez o apelo durante uma conversa telefônica com o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, na segunda-feira (20), segundo a agência estatal chinesa Xinhua.
“O Estreito de Ormuz deve permanecer aberto à navegação normal, o que é do interesse comum dos países da região e da comunidade internacional”, disse Xi ao príncipe, de acordo com a Xinhua.
Pequim tentar intermediar o conflito
As declarações refletem o delicado equilíbrio que Pequim tenta manter. Embora o Irã seja um de seus parceiros estratégicos mais próximos no Oriente Médio, a China também possui fortes laços econômicos com países do Golfo que foram alvo de ataques iranianos - ataques que Pequim não condenou.
“Trata-se de um gesto simbólico que reflete a importância do reino aos olhos de Pequim como principal potência do Golfo e, em parte, compensa a falta de condenação ou de apoio mais efetivo da China a Riad”, afirmou Tuvia Gering, pesquisador do Atlantic Council’s Global China Hub, referindo-se à Arábia Saudita, que tem enfrentado ataques com mísseis e drones atribuídos ao Irã.
Brian Wong Yue-Shun, especialista em relações internacionais da Universidade de Hong Kong, avalia que a mensagem também foi direcionada ao Irã.
“Pequim está sinalizando, de forma sutil, mas relevante, aos setores mais duros em Teerã que uma escalada descontrolada adicional não será tolerada”, disse.
Xi Jiping e a “lei da selva”
A conversa de Xi com o príncipe saudita ocorreu após uma reunião, na semana passada, em Pequim, com o xeique Khaled bin Mohamed bin Zayed Al Nahyan, príncipe herdeiro de Abu Dhabi. Na ocasião, Xi alertou para o risco de o mundo voltar à “lei da selva”. Diferentemente do telefonema com Mohammed bin Salman, líder de fato da Arábia Saudita, ele não mencionou diretamente o Estreito de Ormuz nesse encontro.
Na ligação, Xi também afirmou que a China apoia os países da região na construção de “um lar compartilhado de boa vizinhança”, para que possam “tomar em suas próprias mãos seu futuro e destino”, segundo a Xinhua.
Manoj Kewalramani, chefe de estudos do Indo-Pacífico na Takshashila Institution, na Índia, disse que a mensagem está alinhada com os apelos anteriores de Pequim por desescalada.
“Basicamente, Pequim quer que os Estados Unidos levantem seu bloqueio e que o Irã também permita a passagem de navios”, afirmou.
Tanto a Arábia Saudita quanto o Irã têm defendido um papel maior da China como mediadora na crise. Há quase três anos, Pequim ajudou os dois países a restabelecer relações diplomáticas. Ainda assim, não está claro se Xi está disposto a aprofundar o envolvimento chinês e correr o risco de se enredar em uma crise que não criou.
Segundo analistas, a principal preocupação de Pequim com o conflito é econômica. A China importa até 40% de seu petróleo pelo Estreito de Ormuz. Um fechamento prolongado da rota estratégica poderia provocar uma desaceleração econômica global e ameaçar o comércio, principal motor da economia chinesa.
Estadão
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