Fonte: Tribuna do Norte
Amada por uns e temida por outros, a redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) é considerada por muitos como parte essencial para quem quer se dar bem e obter boas notas. Os critérios utilizados pelo exame nos últimos anos exigem dos participantes maior capacidade de argumentação aliado à contextualização do tema proposto à realidade atual, de modo que cada pessoa tenha um posicionamento sólido sobre o assunto posto para dissertação. E teve gente que não se intimidou com o “monstro de sete cabeças” que se criou em torno da prova no imaginário dos estudantes. A potiguar Luana Natália, de 19 anos, mostrou que é boa de escrita, organizou e defendeu com firmeza suas considerações e teve como glória a nota máxima na redação. Moradora do bairro Pajuçara, na Zona Norte de Natal, a jovem está no seleto grupo de 104 participantes do Enem, de todo o Brasil, que alcançaram os 1000 pontos na edição realizada em 2015.
Luana fez a prova pela segunda vez, a primeira como ‘treineira’, em 2014. Na ocasião, ela chegou perto do desempenho de 2015. Tirou 900 na redação. Dessa vez, ela se dedicou ainda mais para conseguir uma boa nota. “Nunca tinha estudado tanto na minha vida”, declarou. A estudante não esperava que o seu desempenho na redação fosse recompensado com o topo da pontuação. “Esperava uma nota boa na redação, mas não mil”, disse, ainda admirada. A fórmula para o êxito não tem mistérios, é até simples e qualquer pessoa pode segui-la: ler, escrever e debater.
“Leio de tudo, menos auto-ajuda”, comenta em meio a risadas. “Sempre gostei de escrever, publico textos no meu blog desde os 13 anos. Treinei bastante, escrevia duas redações por semana. Também discuti o tema da redação desse ano com minha família e meus amigos”. Coincidências à parte, Luana pode se considerar uma sortuda, embora ela não acredite muito em acasos. “Não acredito muito nessas coisas, mas acho que o tema foi direcionado para mim. Fiz a redação em pouco tempo, quase uma hora”, afirmou a jovem.
Luana Natália é feminista, debate e defende o direito das mulheres e viu no assunto proposto ano passado, “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, um prato cheio para montar seu discurso e defender a causa que tem como bandeira. “Achei importante porque o machismo mata as mulheres diariamente. Então, esse tema deve estar sempre em discussão e o Enem é um grande meio para divulgar assuntos como este”, afirmou.
Em seu texto, a jovem militante utilizou da contextualização sócio-histórica para montar a dissertação. Além disso, ela recorreu a figuras icônicas como Simone de Beauvoir e de obras literárias como A Casa dos Espíritos, da escritora chilena Isabel Allende, que tem um dos protagonistas como representante do machismo. “Fiz a relação com a herança que vem de milhares de anos, da mulher ser considerada um objeto, que não tem autonomia sobre o seu corpo, e com aquele velho ditado ‘em briga de marido em mulher, não se mete a colher’, que são ideias absurdas”, comentou.
Expectativas
Passado o período de provas, veio a expectativa que é inevitável para boa parte das candidatas e dos candidatos, até o encerramento da contagem regressiva no último dia 8, quando o acesso às notas do Enem foi liberado para consulta. Sobre o momento em que visualizou a nota da redação, a estudante relata: “Eu fiquei de boca aberta por uns cinco minutos, minha mãe começou a chorar e eu corri pra casa das minhas tias pra comemorar”.
Desde criança, Luana sonha, tão somente, em cursar Medicina. Ela concorre a uma das vagas ofertadas por instituições públicas de ensino superior instaladas no estado por meio do Sistema de Seleção Unificada (SiSU). Escolheu como primeira opção a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e como segunda preferência a Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN). Até ontem, das 50 vagas em disputa na UFRN, Luana ocupava a 53ª posição com 766,86. Já na UERN, figura na 3ª posição de 60 vagas, com 787,65.
A diferença nas notas se dá em relação ao peso que cada instituição atribui às pontuações. Isto é, um curso de medicina pode atribuir maior peso às notas da área de Ciências da Natureza, por exemplo, o que influencia na média bruta. Como o SiSU é marcado pela imprevisibilidade, pois as notas de corte sofrem variações de acordo com as inscrições solicitadas em cada curso, Natália mantém os pés no chão para qualquer eventualidade. “Se for o caso, faço cursinho, recomeço novamente. Desistir nunca”, afirmou.
De toda maneira, permanece o sentimento de satisfação em ver o resultado do esforço feito durante o ano passado para realizar o Enem, expresso nos excelentes números conquistados, o que a jovem atribui aos seus mestres. “Eles [os professores] são a parte mais importante disso tudo. Desde o primário até o cursinho, eles foram essenciais. Guardo uma parte deles dentro de mim e usei isso na prova. Por isso que eu saí tão bem”, avaliou.

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