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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Tarifa sobre importados dá fôlego à indústria, mas pode encarecer produção, avalia Fiern


 Foto: Alex Régis

Com o aumento do imposto de importação sobre mais de 1.200 produtos, incluindo equipamentos tecnológicos e eletrônicos, startups, indústrias e empresas do comércio no Rio Grande do Norte já avaliam os impactos da medida nos custos, nos investimentos e na competitividade. Para a Federação das Indústrias do RN, o aumento pode dar fôlego à indústria nacional no curto prazo, mas deve ser acompanhada de outras ações, sob o risco de gerar perda de eficiência no médio prazo.

“Estamos diante de uma medida de proteção à indústria nacional. No curto prazo, ela pode dar fôlego a setores que vinham perdendo espaço para importados, preservando empregos e fortalecendo a produção interna”, disse o presidente da Fiern, Roberto Serquiz, acrescentando que é preciso olhar a cadeia como um todo, uma vez que parte da indústria depende de insumos e equipamentos importados. “Se esses itens ficam mais caros, o custo de produção sobe — e isso pode chegar ao consumidor”, alerta.

Ainda de acordo com o representante do setor industrial, o ponto central da medida não é apenas proteger, mas como proteger a indústria local.

“Se for uma medida temporária, acompanhada de inovação, produtividade e modernização industrial, pode fortalecer o setor.

Se for apenas uma barreira tarifária isolada, o risco é gerar acomodação e perda de eficiência no médio prazo. Ou seja, a medida pode ajudar no curto prazo, mas seus efeitos estruturais dependerão da estratégia que a acompanha”, pondera Serquiz.

O aumento das alíquotas do imposto de importação foi anunciado pelo Comitê Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex/Camex) e engloba uma lista ampla de bens de capital que inclui máquinas, ferramentas e equipamentos, além de bens de informática e telecomunicação. Ao todo, são englobados mais de 1.200 produtos eletrônicos, incluindo smartphones, freezers e painéis com LED. A elevação do imposto para os produtos incluídos na medida pode chegar a até 7,2 pontos percentuais.

Para o economista Ricardo Valério, superintendente do Conselho Regional de Economia (Corecon/RN), o principal impacto da alta na taxação será o possível adiamento da modernização do parque industrial no país, já que a medida encarece a importação de máquinas e equipamentos essenciais para atualização tecnológica. “Os riscos de desabastecimento são poucos e, igualmente, não deverá ocorrer redução de oferta de forma substancial”, disse.

Segundo ele, o próprio Ministério da Fazenda aponta uma perda de 33,4% de participação no mercado interno nos últimos anos, o que teria motivado a adoção da medida. Ele destaca, no entanto, que a ampliação da presença brasileira em mercados como o asiático e o indiano, além do acordo entre Mercosul e União Europeia, tendem a pressionar a indústria a buscar mais competitividade.

“Esse cenário vai forçar o setor produtivo a se modernizar para não ficar para trás nos avanços tecnológicos e na disputa no mercado global”, afirma Ricardo Valério. O economista também projeta preços mais altos para os eletrônicos.

“As maiores perdas ficam, evidentemente, para o consumidor final, que ficará com os produtos importados entrando com preços mais competitivos, oriundo, notadamente, dos Estados Unidos, da China e de Singapura”, explica.

Para Hugo Fonseca, secretário-adjunto da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico do RN (Sedec), o cenário ainda exige cautela. “Ainda estamos analisando os possíveis impactos em nossas cadeias de suprimentos”, afirma.

Combustíveis, trigo e energia lideram importação

Dados da balança comercial de 2025 fornecidos à reportagem pelo Observatório da Indústria Mais RN mostram que a pauta de importações do RN é fortemente concentrada em combustíveis, insumos alimentares e equipamentos ligados à matriz energética. O principal produto importado foi “outras gasolinas, exceto para aviação”, que somou US$ 56,9 milhões, o equivalente a 13,05% do total adquirido pelo estado no exterior. A principal origem foi os Estados Unidos, responsáveis por 55% desse volume.

Logo em seguida aparece o trigo e misturas de trigo com centeio, que também movimentaram US$ 56,9 milhões (13,04% do total importado), tendo como principal fornecedor a Argentina, com 66,38% de participação.

Equipamentos ligados à transição energética também ganham destaque. As células fotovoltaicas montadas em módulos ou painéis somaram US$ 33,3 milhões (7,63% das importações), sendo 96,22% provenientes da China. Outros conversores elétricos estáticos, igualmente ligados ao setor de energia, representaram mais US$ 18,3 milhões, também com predominância chinesa. O gasóleo (óleo diesel) movimentou US$ 23,5 milhões, com 61% das compras vindas da Rússia.

Tarifas exigem adaptação rápida no RN

Rodrigo Romão, diretor do Metrópole Parque, pondera que as tarifas de importação exigem adaptação rápida para o setor de tecnologia no RN. “A prioridade passa a ser planejamento de compras, revisão de CAPEX de infraestrutura e busca ativa por alternativas de fornecimento e enquadramentos legais já existentes”, disse.

Ainda segundo Romão, no estado, a medida pode impulsionar duas frentes estratégicas: a ampliação da eficiência nos projetos, com mais engenharia de custos e padronização, e o fortalecimento de fornecedores e integradores locais, desde que a oferta interna atenda aos requisitos técnicos e aos prazos estabelecidos. Para ele, “o essencial é garantir previsibilidade para que a inovação continue avançando”.

No RN, há startups e empresas com forte atuação em soluções que dependem de equipamentos e conectividade. Para esses negócios, a mudança pode elevar os custos de protótipos, projetos-piloto e contratos, conforme o diretor.

Por outro lado, também pode abrir espaço para a integração local, serviços de manutenção, recondicionamento e eficiência operacional, desde que a cadeia nacional consiga responder com qualidade, escala e cumprimento de prazos.

Rodrigo Romão avalia que para não perder competitividade no setor digital o ponto-chave é a previsibilidade. “Em um setor que evolui rápido, mudanças de custo e prazo influenciam decisões de investimento. Por isso, é fundamental estimular o monitoramento de indicadores e diálogo com o ecossistema para ajustar rotas e preservar a dinâmica de inovação e produtividade”, destaca.

Tribuna do Norte 

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