Crédito habitacional no RN cresce 16,9% e atinge recorde de R$ 17,6 bi em julho


 Foto: Alex Régis

Felipe Salustino
Repórter

O crédito habitacional destinado a pessoas físicas no Rio Grande do Norte chegou a R$ 17,6 bilhões em julho deste ano, o maior valor da série histórica do Banco Central (BC). O montante representa a terceira maior alta do Nordeste, de 16,9% em relação aos R$ 15,06 bilhões registrados em julho de 2025. Os dados foram fornecidos pelo Sicredi Nordeste e mostram que o RN registrou o quinto maior montante da região no mês em julho. Ao mesmo tempo em que a carteira avançou, a taxa de inadimplência das operações no estado alcançou 1,17%. O índice, no entanto, é o terceiro menor entre os nove estados da região.

Em termo de valores, Bahia (R$ 44,7 bilhões), Pernambuco (R$ 35,4 bilhões), Ceará (R$ 34,1 bilhões) e Paraíba (R$ 24 bilhões) lideram as operações do setor em julho deste ano no Nordeste. Quanto ao crescimento do montante de um ano para outro, os destaques, além do RN, são o Ceará (19,2%) e Pernambuco (18%). O Sicredi Nordeste destaca que o crescimento do crédito habitacional no mercado potiguar ocorre mesmo com a poupança perdendo força como fonte de recursos para esse tipo de financiamento.

Ainda assim, aponta o Sicredi, os financiamentos imobiliários com recursos da poupança movimentaram R$ 460 milhões no Rio Grande do Norte no primeiro semestre de 2026, alta de 28,2% em comparação ao que foi registrado no mesmo período de 2025, segundo dados da Associação Brasileira de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip).

O economista João Paulo Moura afirma que os resultados de julho no RN podem ser explicados pelas alterações nas políticas públicas recentes de moradia.

“A portaria MCID nº 333/2026, de abril, atualizou os subsídios do programa Minha Casa, Minha Vida para até R$ 55 mil – antes, o subsídio chegava a R$ 25 mil ou R$ 30 mil. O limite de renda familiar do programa também aumentou, chegando a até R$ 13 mil. Isso fez com que mais pessoas fossem beneficiadas. E o Rio Grande do Norte tem, ainda, o programa RN + Moradia, programa do Governo do Estado que concede subsídio para compra da casa própria”, pontua o economista.

Segundo o especialista, o perfil que mais procura financiamento atualmente é formado por pessoas que querem sair do aluguel ou que buscam fazer algum tipo de investimento pela primeira vez. “Os imóveis são sempre a opção para aqueles que pensam em investir sem o receio de perder dinheiro”, diz João Paulo Moura.

Francisco Ramos, vice-presidente de Mercado Imobiliário do Sinduscon-RN, disse, por sua vez, que os segmentos de baixa renda são os mais dependentes de crédito. “Famílias com renda de até R$ 13 mil, e imóveis de valor até R$ 600 mil continuam sendo a base do volume de contratações. O programa federal, sustentado pelo FGTS, garante subsídios e taxas de juros reduzidas, sendo o maior motor das vendas imobiliárias no Estado. Além disso, as famílias de médio padrão são altamente dependentes dos recursos da poupança, o chamado SBPE”, comentou.

“O crescimento nos financiamentos via poupança no primeiro semestre mostra que a classe média voltou a comprar ativamente, optando por imóveis de médio padrão e compactos bem localizados”, complementou, ao mencionar que o fato de a Selic estar em queda funciona como um estimulador de demanda, pois as famílias passam a acreditar que o custo das parcelas tende a reduzir, podendo no futuro próximo fazer a portabilidade com melhores condições.

Para ele, o crescimento do crédito tem estimulado, de forma expressiva, novos lançamentos e investimentos no estado. “A garantia que há crédito disponível deixa os incorporadores mais confortáveis em investir no de-senvolvimento de novos projetos. Refletindo essa confiança, o censo imobiliário do Sinduscon-RN apontou um crescimento de 48% nos lançamentos acumulados em 12 meses no mês de junho/2026. Por outro lado, a baixa inadimplência (apenas 1,17%) indica uma carteira de crédito imobiliário saudável, atraindo os agentes financeiros de mercado a financiar a construção civil potiguar, gerando emprego e renda local”, falou.

Já Artur da Silva Figueiredo, assessor de Ciclo de Crédito da Central Sicredi Nordeste, afirma que o resultado ocorre mesmo em um cenário de juros elevados, que encarece os financiamentos e aumenta o custo das operações para as famílias.

“O crédito imobiliário tem uma característica diferente de outras modalidades, porque está diretamente ligado a uma necessidade de longo prazo das famílias. Mesmo em cenários de juros mais elevados, existe uma demanda que permanece, seja para aquisição da moradia, seja para substituição ou ampliação do imóvel”, explica.

Ainda segundo ele, a perda de força da poupança como fonte de recursos tem a ver com um processo de diversificação da estrutura de funding do crédito imobiliário observado no mercado nos últimos anos. “Além da poupança, recursos do FGTS e instrumentos como LCIs e CRIs passaram a ter uma participação importante. Isso amplia as possibilidades de captação e permite que o mercado continue atendendo à demanda por financiamento”, afirma Artur Figueiredo.

Esse movimento, de acordo com o Sicredi Nordeste, aparece nas cooperativas de crédito e ajuda a explicar o avanço no estado. O próprio Sicredi permite financiar até 90% do valor de imóveis residenciais em operações com prazos de até 35 anos, seguindo um sistema de amortização constante em que o valor das parcelas tende a diminuir ao longo do tempo. O crescimento do mercado também está entre as estratégias para os próximos anos e a instituição projeta multiplicar por mais de dez a carteira de crédito imobiliário até 2029.

Francisco Ramos (Sinduscon-RN): “classe média voltou a comprar ativamente”. Foto: Anderson Régis

Inadimplência

Com relação à inadimplência do setor, conforme os dados do BC, o índice do RN (1,17%) em julho ficou entre os menores do Nordeste. Paraíba (1,09%) e Pernambuco (0,94%) apresentam, junto com o estado potiguar, a melhor situação da região. O Maranhão (2,2) registrou o pior cenário. O economista João Paulo Moura disse não haver motivos para preocupação quanto aos inadimplentes do mercado de crédito habitacional no RN.

“A taxa de 1,17% é baixa diante do grande número de empréstimos dos últimos meses e está abaixo da média nacional, que é de 1,3%”, afirma o economista. Na avaliação dele, o crédito habitacional para pessoas físicas no estado continuará crescendo, embora em volume menor do que o registrado em julho. “O mercado imobiliário está aquecido, levando em conta que as pessoas querem investir e se proteger ao mesmo tempo. E como eu já citei, os imóveis trazem segurança na hora de fazer os investimentos. Mas esse crescimento não será tão alto quanto em julho, mês considerado fora da curva”, analisa.

NÚMEROS

Crédito habitacional no Nordeste - julho de 2026

BA: R$ 44,7 bilhões
PE: R$ 35,4 bilhões
CE: R$ 34,1 bilhões
PB: R$ 24 bilhões
RN: R$ 17,6 bilhões
MA: R$ 16,4 bilhões
SE: R$ 12,1 bilhões
AL: R$ 12 bilhões
PI: R$ 10 bilhões

Variação do volume de crédito - julho 2025 e julho 2026

CE: 19,2%
PE: 18%
RN: 16,9%
PB: 16%
AL: 15,9%
PI: 15%
BA: 14,6%
SE: 14%
MA: 13,9%

Inadimplência – julho de 2026

PE: 0,94%
PB: 1,09%
RN: 1,17%
AL: 1,38%
CE: 1,49%
SE: 1,63%
BA: 1,98%
PI: 2,18%
MA: 2,2%

Tribuna do Norte

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