Irã sinaliza prontidão para intensificar o confronto diante da crescente pressão dos EUA


 Foto: AFP

 O Irã sinalizou que está disposto a intensificar o conflito com os Estados Unidos, com altos líderes emitindo advertências cada vez mais contundentes nos últimos dias, após a República Islâmica atacar navios de guerra americanos pela primeira vez.

No domingo, 6, Mohammed Bagher Ghalibaf, principal negociador do Irã e presidente do Parlamento, disse aos parlamentares que a era das “respostas proporcionais” aos ataques americanos havia terminado. O chefe de segurança do Irã, Mohsen Rezaei, também anunciou planos para impor uma “zona restrita” à navegação no Golfo Pérsico, que iria além dos esforços do país para controlar o Estreito de Ormuz.

O Irã resistiu em grande parte à intensa campanha militar lançada pelos Estados Unidos e Israel em fevereiro. Mas a guerra de desgaste dos últimos meses criou uma ameaça econômica que agora está levando o governo a intensificar sua retórica e seus ataques.

Um bloqueio naval americano impediu Teerã de exportar grande parte de seu petróleo, principal fonte de receita do país, agravando ainda mais uma crise econômica de longa data. Na terça-feira, o governo aumentou alguns preços da gasolina devido à escassez de combustível, uma medida que deve perturbar ainda mais um país que já enfrenta inflação e desemprego crescentes, além de uma moeda em rápida desvalorização.

Ao mesmo tempo, a escolta naval dos EUA permitiu que um pequeno número de petroleiros atravessasse o Estreito de Ormuz, minando o fechamento da hidrovia pelo Irã, que provocou um aumento acentuado nos preços globais do petróleo. O número de navios que conseguem passar é pequeno, e o esforço é extremamente custoso para os Estados Unidos, mas impediu que os preços do petróleo subissem ainda mais e reduziu a capacidade do Irã de impor sanções econômicas a Washington.

“Como recuperar o ímpeto? Intensificando o conflito”, disse Farzan Sabet, analista do Irã no Instituto de Altos Estudos Internacionais e de Desenvolvimento de Genebra. O Irã provavelmente tentará intensificar o confronto militar, afirmou ele, buscando evitar um retorno à guerra total. “É extremamente prejudicial, mas, ao mesmo tempo, eles esperam que isso eleve os preços globais do petróleo ou feche completamente o Estreito de Ormuz”, concluiu.

‘Momento decisivo’

Altos funcionários iranianos afirmaram estar abertos a negociar o retorno ao frágil memorando de entendimento que interrompeu a guerra em abril e que tinha como objetivo conduzir a conversas sobre um acordo nuclear com o Irã. Mas o presidente Trump afirmou não ter interesse em negociações, preferindo manter sua estratégia de desgaste e sufocar o Irã economicamente.

A liderança iraniana acredita que agora pode ser o melhor momento para aumentar a pressão, antes das eleições de meio de mandato nos EUA, em novembro, quando uma guerra impopular poderia prejudicar Trump e o Partido Republicano.

“Todos os sinais apontam para um momento decisivo”, disse Mohammad Ali Shabani, analista do Irã e editor do site de notícias regional Amwaj.media. “Não tenho certeza se os iranianos vão esperar até depois das eleições para serem atacados caso a diplomacia falhe.”

A ação do Irã de atacar dois navios de guerra dos EUA com mísseis balísticos representou uma escalada significativa, afirmou Hamidreza Azizi, analista sênior do Irã no International Crisis Group.

As forças iranianas não haviam feito nenhum esforço significativo para alvejar navios da Marinha dos EUA e pareciam relutantes em realizar ataques que pudessem causar pesadas baixas americanas. “Esses cálculos obviamente mudaram”, disse ele.

A decisão dos EUA de retaliar atacando três petroleiros iranianos — e afundando um deles — foi uma indicação da seriedade com que Washington encarou o ataque iraniano.

“Ambos os lados estão tentando impor suas linhas vermelhas e tentando empurrar as linhas vermelhas do outro lado o mais para trás possível”, disse Azizi.

Foi também um reconhecimento de que as capacidades militares do Irã evoluíram. Antes do início da guerra, os Estados Unidos não acreditavam que o Irã pudesse atingir bases militares americanas na região com precisão, disse ele. Mas, nos últimos meses, o Irã demonstrou que é capaz de fazê-lo, inclusive com um ataque a uma base americana na Jordânia em julho, que matou dois soldados americanos. O Irã poderia se tornar igualmente hábil em atacar frotas navais, disse Azizi.

O Irã também tem sido bastante transparente sobre seus esforços para capturar e aprender com o armamento de seus inimigos. Na terça-feira, a agência de notícias estatal iraniana IRNA anunciou que as forças navais da poderosa Guarda Revolucionária haviam apreendido um drone submarino americano conhecido como Dive-LD. O Irã já havia conseguido realizar engenharia reversa de armas oferecidas por seus aliados ou capturadas de seus inimigos.

O Comando Central dos EUA afirmou que o drone era um modelo antigo que apresentou defeito e “não coletou dados sensíveis nem transportava qualquer equipamento de sonar ou radar classificado”.

O anúncio de Rezaei sobre uma nova “zona proibida” no Golfo Pérsico foi mais uma tentativa de intensificar o confronto. O chefe de segurança ofereceu poucos detalhes sobre o plano, mas Mohamed Ghaderi, um especialista em relações exteriores baseado em Teerã, disse que ele foi concebido para aumentar o custo para as embarcações que passam pelo estreito com escolta naval dos EUA e alertá-las de que podem não estar seguras mesmo depois de o fazerem.

“O cumprimento das novas regras do Irã pode ser uma condição para uma passagem segura e sem consequências”, disse ele.

Essas medidas de escalada ocorrem em meio a uma nova turbulência regional, com os aliados do Irã no Iêmen, a milícia Houthi, lançando ataques que feriram dezenas de pessoas no sul da Arábia Saudita na terça-feira, e o reino prometendo retaliar. Seja coordenado com Teerã ou não, o reacendimento do conflito no Iêmen ajudaria o Irã em seu objetivo de pressionar ainda mais os preços globais da energia.

Crise econômica

Para os líderes iranianos, o que eles chamam de “guerra econômica” dos EUA se tornou um risco à segurança interna, o que os levou a adotar uma postura mais agressiva.

A crescente sensação de desespero econômico entre os iranianos pode desencadear uma nova onda de protestos antigovernamentais. Em dezembro passado, uma crise cambial provocou manifestações em todo o país, que foram reprimidas com violência letal pelas forças de segurança.

Autoridades iranianas temem que Israel possa explorar qualquer descontentamento para apoiar dissidentes ou uma insurgência, afirmou Hadi Borhani, professor de estudos israelenses e do Oriente Médio na Universidade de Teerã.

Ele mencionou declarações recentes do ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, e do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, que disseram esta semana que “ainda há muito a ser feito. Quero dizer, antes de mais nada, a derrubada do regime. Este regime no Irã — seu fim está próximo.”

O governo iraniano não quer esperar que Israel tome uma atitude. “Eles acreditam que o Irã deveria mudar a situação, possivelmente por meio de uma ação mais prejudicial ou agressiva que possa aumentar a tensão regional”, disse Borhani.

Alguns líderes iranianos também acreditam que agora é um bom momento para agir, porque Trump retornará à guerra após as eleições de meio de mandato de qualquer maneira. O presidente se sentirá justificado por uma vitória eleitoral inesperada ou achará que não tem mais nada a perder ao prosseguir com sua própria estratégia, disseram vários analistas.

Sabet, no entanto, prevê que a piora das condições econômicas globais acabará por levar o governo Trump a aliviar as tensões.

Embora a escolta naval dos EUA pelo Estreito de Ormuz tenha permitido a passagem de algum petróleo, ele afirmou que os estoques globais de petróleo bruto não estão sendo reabastecidos com rapidez suficiente, e o gás natural e outros derivados essenciais do petróleo não estão conseguindo chegar ao destino. É provável que essa escassez cause ainda mais prejuízos à economia global.

“É aí que eu os vejo tentando chegar a algum tipo de acordo limitado ou de fato”, disse ele. “Não pensem nisso como um memorando de entendimento ampliado — pensem em um memorando de entendimento reduzido.”

Estadão 

Postar um comentário

0 Comentários