Foto: Alex Régis
Kayllani Lima Silva
Repórter
A carteira de crédito para pessoa física no Rio Grande do Norte alcançou o volume de R$ 53,4 bilhões em junho deste ano. O montante representa cerca de 73,9% do saldo das operações em todo o estado, correspondente a R$ 72,2 bilhões, e foi puxado principalmente pelo financiamento habitacional e crédito consignado. As empresas, por outro lado, foram responsáveis por R$ 18,8 bilhões da carteira. Ao todo, nos últimos 12 meses encerrados no primeiro semestre de 2026, o saldo das operações de crédito no RN registrou alta de 10,8%, superando a média nacional de 9,7%.
Os dados foram levantados pelo Escritório Técnico de Estudos Econômicos (Etene) do Banco do Nordeste (BNB), com base nas informações do Sistema de Informações de Crédito do Banco Central (BC). Segundo o levantamento, a alta registrada no Rio Grande do Norte foi a sexta maior entre os estados da região Nordeste e, embora tenha superado a média nacional, ficou abaixo da média regional, onde a carteira de crédito avançou 11,5%.
No RN, o economista Robespierre do Ó chama a atenção para o crescimento, dentre outros pontos, do financiamento habitacional. De acordo com os dados do Banco Central, essa linha de crédito atingiu o montante de R$ 17,31 bilhões em junho deste ano, puxando parte significativa da participação de 73,9% das pessoas físicas no volume de crédito atingido no estado.
“Essa predominância pode ser explicada, inicialmente, pela própria natureza das operações: financiamentos habitacionais, consignados e financiamentos de veículos possuem prazos longos e permanecem registrados na carteira durante vários anos. Portanto, estamos falando do saldo acumulado das operações, e não apenas dos novos empréstimos concedidos em junho”, esclarece o economista.
A professora de história Leylanny Silva, de 26 anos, está entre as pessoas que buscaram financiamento nos últimos 12 meses para adquirir sua primeira casa na Grande Natal. Ela conta que o valor total do imóvel foi de R$ 175 mil, com um subsídio de cerca de R$ 60 mil. O contrato junto ao banco foi fechado em março deste ano.
“O corretor sugeriu adquirir a casa por meio do financiamento da CAIXA, porque seria mais fácil por meio do Programa Minha Casa Minha Vida. Foi assim que consegui o subsídio de [aproximadamente] R$ 60 mil”, afirma.
Em relação ao consignado e ao crédito pessoal, que alcançaram, respectivamente, o volume de R$ 13,02 bilhões e R$ 10,39 bilhões, respectivamente, Robespierre do Ó esclarece que o cenário pode estar associado ao crescimento do mercado imobiliário. Isso porque a compra de um imóvel envolve despesas que nem sempre são financiadas por completo, como entrada e registro, estimulando algumas famílias a recorrerem a empréstimos.
Já outra parcela, segundo Robespierre do Ó, pode estar sendo utilizada para despesas de curto prazo e para substituir dívidas mais caras, como cartão rotativo e cheque especial ou crédito pessoal comum. “O consignado possui menor taxa de juros, porque a prestação é descontada diretamente da renda. Por isso, pode ser usado como instrumento de reorganização financeira”, completa.
Quanto ao crédito para pessoa jurídica (PJ), o gerente do Etene/BNB, Allisson David de Oliveira Martins, explica que o crescimento do RN acompanha o ritmo de expansão no Nordeste e sinaliza diferentes movimentações. “Quando um empresário quer fazer uma ampliação do seu negócio, como modernização e diversificação de produtos, isso passa por uma decisão financeira. Então as empresas naturalmente buscam o mercado de crédito para financiamento”, explica.
Na avaliação dele, esse movimento pode estar sendo influenciado pela diminuição da taxa de desocupação no mercado de trabalho na região e, consequentemente, na elevação da renda. Em outras palavras, à medida que o mercado consumidor começa a ampliar, os investimentos se tornam mais atrativos para as empresas.
O economista Robespierre do Ó concorda que o resultado pode estar associado a fatores como crescimento da renda e realização de investimentos empresariais, mesmo diante de uma política monetária ainda “restritiva”.
“Entretanto, o aumento do crédito não deve ser interpretado isoladamente como crescimento econômico. O crédito pode financiar investimentos e formação de patrimônio, mas também pode ser utilizado para capital de giro, pagamento de despesas correntes e reorganização de dívidas. Por isso, é necessário observar sua composição”, observa.

Setor de Serviços puxa participação de empresas
Na participação das empresas, outra configuração é observada. De acordo com os dados levantados pelo Etene, do total de aproximadamente R$ 18,8 bilhões alcançados em junho, 53,3% está associado ao setor de serviços. Em números absolutos, o segmento atingiu R$ 10 bilhões em operação.
Na sequência, os setores com maior destaque foram Indústria, que respondeu por R$ 8,5 bilhões, equivalente a 45,3%; e agropecuária, responsável por R$ 274,5 milhões, ou seja, 1,5% do montante.
De acordo com o economista Helder Cavalcanti, a concentração nos três setores acompanha a estrutura da economia potiguar. O setor de serviços, por exemplo, reúne diferentes segmentos, como turismo, transportes, saúde e diversos serviços empresariais.
“São atividades com forte presença na economia estadual e necessidade permanente de crédito para capital de giro, pagamento de fornecedores, formação de estoques, modernização e expansão dos negócios”, completa.
Uma visão semelhante é apontada pelo economista William Figueiredo, da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado (Fecomércio). De acordo com ele, o volume reforça a participação expressiva do segmento no PIB do setor privado do Estado.
No caso do comércio, especialmente, o economista da Federação esclarece que a demanda por crédito é motivada pela necessidade do segmento girar estoque, ou seja, comprar novos produtos para renovar as prateleiras de venda. Aliado a isso, a participação é influenciada pelos juros cobrados pelos bancos nos casos de antecipação dos recebíveis.
“Quando uma pessoa vai no comércio e compra a prazo, o lojista não espera o vencimento do cartão para receber aquela venda, pois precisa girar o estoque. Então ele pega a garantia de recebimento, chamado de recebível, vai ao banco e antecipa aquele recebimento. Com isso, o setor bancário vai cobrar juros para antecipar aquele dinheiro. Por isso o setor de comércio demanda tanto crédito”, completa.
Em relação à indústria, Helder Cavalcanti analisa que a participação de 45,3% do setor pode ser explicada pelo fato desse segmento incluir atividades que exigem maior volume de capital, como petróleo e gás, energia, construção, alimentos, mineração, sal, confecções e outros ramos de transformação.
“Uma única operação industrial pode movimentar valores muito superiores aos normalmente contratados por uma pequena empresa de comércio ou de serviços. Outro aspecto importante é que empresas maiores, mais formalizadas e com garantias patrimoniais costumam ter maior capacidade de acesso ao sistema financeiro”, completa o economista.

De acordo com o presidente da Fiern, Roberto Serquiz, a expansão do crédito industrial no RN está vinculada ao ciclo de investimentos em infraestrutura energética e construção.
“O estado continua atraindo recursos para projetos de energia renovável, enquanto o mercado imobiliário de Natal também apresenta crescimento. A esse movimento se soma a atuação dos bancos públicos, com linhas direcionadas à indústria e à infraestrutura, além da própria expansão do crédito para pessoas jurídicas observada no país. A forte concentração do crédito industrial em eletricidade e gás é compatível com esse ciclo de investimentos e reforça a importância do setor energético para a economia potiguar.”
Na agropecuária, a Federação da Agricultura e Pecuária do RN (Faern) pontua que a participação de 1,5% ainda representa uma parcela reduzida do saldo empresarial do estado. A entidade observa, por outro lado, que as operações não correspondem a todo o financiamento da produção rural potiguar, pois muitos produtores contratam crédito como pessoa física.
A Faern aponta, ainda, que no Rio Grande do Norte o universo de empresas agropecuárias formalmente constituídas é relativamente menor do que o encontrado em setores como comércio, serviços e indústria, que concentram parcela mais elevada do crédito empresarial.
“Portanto, o percentual de 1,5% não deve ser interpretado isoladamente como medida de todo o acesso do campo ao crédito, mas como indicador da presença ainda limitada da agropecuária empresarial formal na carteira de pessoas jurídicas”, completa.
Tribuna do Norte
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