Fonte: BBC
Os seguranças contratados pelo psicĂłlogo Thomas Ormerod enfrentavam uma tarefa aparentemente impossĂvel. Em aeroportos de toda a Europa, eles tinham que entrevistar passageiros sobre seus planos de viagens passados e futuros.
Mas Ormerod “plantou” alguns atores na multidĂŁo com a instrução de que inventassem histĂłrias falsas – e seus seguranças teriam que identificar os mentirosos. A peneira era difĂcil – de cada mil passageiros entrevistados, apenas um iria mentir.
Ormerod e seus homens sabiam que tentar ler pistas na linguagem corporal dos entrevistados nĂŁo seria muito eficiente – vĂĄrios estudos cientĂficos jĂĄ descobriram que detectar mentiras dessa forma ou com base em expressĂ”es faciais Ă© praticamente uma questĂŁo de sorte.
Eles entĂŁo tentaram uma abordagem diferente – e conseguiram atingir suas metas. O segredo? Jogar fora vĂĄrias das tĂ©cnicas antigas e começar com algo totalmente novo.
Variedade de comportamentos
Nos Ășltimos anos, pesquisas cientĂficas sobre a mentira tĂȘm sido amaldiçoadas por resultados decepcionantes. Muitos desses trabalhos se concentraram em tentar ler as intençÔes do mentiroso em sua linguagem corporal e em seu rosto, como risadas nervosas, bochechas avermelhadas e olhar fugidio.
O exemplo mais famoso Ă© o ex-presidente americano Bill Clinton coçando o nariz quando negou seu caso amoroso com a estagiĂĄria Monica Lewinsky – algo visto na Ă©poca como um sinal claro de que ele mentia.
“A ideia que tĂnhamos era que o ato de mentir provoca algumas emoçÔes fortes difĂceis de serem contidas – o nervosismo, a culpa e atĂ© um certo prazer”, explica Timothy Levine, professor de ComunicaçÔes da Universidade do Alabama. “Mesmo quando achamos que estamos disfarçando bem, ainda podemos emitir pequenos movimentos chamados de ‘microexpressĂ”es’, que sĂŁo capazes de nos entregar.”
No entanto, quanto mais os psicĂłlogos examinam, mais as pistas parecem ser frĂĄgeis. O problema estĂĄ na enorme variedade do comportamento humano. NĂŁo hĂĄ um dicionĂĄrio universal da linguagem corporal.
“NĂŁo existem sinais consistentes que sempre apareçam junto com a mentira”, explica Ormerod, que Ă© professor de Psicologia da Universidade de Sussex, na GrĂŁ-Bretanha. “Eu rio, mas outros ficam mais sĂ©rios. Alguns olham nos olhos, outros evitam.”
E, apesar de jå termos ouvido teorias sobre como nosso subconsciente pode detectar esses sinais mesmo se eles escapam da nossa atenção, elas são infundadas.
Ouvir o mentiroso
A experiĂȘncia de Ormerod foi realizada nos meses que antecederam os Jogos OlĂmpicos de Londres, em 2012, aproveitando que muitos passageiros poderiam ser interrogados por seguranças para verificar se emitiam algum “sinal suspeito”.
O que o psicĂłlogo observou foi que as autoridades normalmente usam perguntas onde sĂł cabem as respostas “sim” ou “nĂŁo”. “Isso nĂŁo dĂĄ ao agente de segurança a chance de ouvir o passageiro falar nem de observar mudanças de comportamento – aspectos cruciais para a detecção de mentiras”, explica.
A resposta de Ormerod e sua equipe foi simples: treinar os seguranças para tirarem o foco dos maneirismos sutis e prestarem atenção no que as pessoas estão dizendo, suavemente apertando nos pontos certos para conseguir desmascarar o mentiroso.
Ormerod e seu colega Coral Dando, da Universidade de Wolverhampton, identificaram uma sĂ©rie de princĂpios em uma conversa que podem aumentar as chances de descobrir uma mentira:
Usar perguntas “abertas”. Isso obriga o mentiroso a expandir suas histĂłrias atĂ© acabar encurralado em sua prĂłpria mentira.
Apostar no elemento surpresa. Investigadores deveriam tentar aumentar a “carga cognitiva” do mentiroso. Por exemplo, fazendo perguntas inesperadas e confusas, ou pedindo para que contem um acontecimento de trĂĄs para a frente – tĂ©cnicas que dificultam que ele mantenha a fachada.
Prestar atenção em detalhes pequenos. Se um passageiro afirma que trabalha em certa empresa, pergunte sobre o caminho que faz para ir e voltar ao escritório diariamente. Se encontrar uma contradição, não o corrija. à melhor deixar o falsårio ganhar confiança e acabar entregando mais fatos incorretos.
Observar mudanças na autoconfiança. Preste atenção para ver como o estilo de um potencial mentiroso muda quando ele é desafiado: quando acham que estão conduzindo a conversa, eles tendem a ser mais falantes. Mas podem ficar quietos se perceberem que estão perdendo o controle da situação.
Conversa informal
O objetivo Ă© manter uma conversa informal, em vez de um interrogatĂłrio intenso. Sob essa pressĂŁo mais suave, o mentiroso pode acabar se traindo ao contradizer sua histĂłria, ou ao se tornar claramente evasivo em suas respostas. “NĂŁo existe uma fĂłrmula mĂĄgica. Estamos combinando os melhores aspectos para ter uma abordagem cognitiva”, afirma Ormerod.
O psicĂłlogo admite que sua estratĂ©gia pode soar como senso comum. Mas os resultados de sua experiĂȘncia mostram que ela funciona. Os seguranças treinados por ele apresentaram 20 vezes mais chances de detectar os falsos passageiros, encontrando-os 70% das vezes.
As tĂ©cnicas de Ormerod e Levine poderiam primariamente ajudar autoridades na aplicação da lei, mas os mesmos princĂpios podem ajudar qualquer pessoa a caçar mentirosos em suas vidas.
A principal coisa a ser lembrada Ă© de manter a mente aberta e nĂŁo se apressar nas conclusĂ”es. SĂł porque uma pessoa estĂĄ nervosa ou tem dificuldades em se lembrar de detalhes nĂŁo quer dizer que ela tenha alguma culpa. Procure por inconsistĂȘncias, em vez disso.
Pode nĂŁo haver um detector Ă prova de todos os mentirosos, mas usar o tato, a inteligĂȘncia e a persuasĂŁo podem ajudar a verdade a emergir.

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