Estimativa populacional precisa ser interpretada com cautela: Lajes mantém posição estratégica na Região Central, apresenta crescimento entre o Censo de 2022 e a estimativa de 2026 e possui indicadores e políticas públicas que vão muito além do número absoluto de moradores
A divulgação da estimativa populacional de 2026 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) provocou interpretações diferentes sobre o cenário demográfico do Rio Grande do Norte, e Lajes passou a ser citada como exemplo de uma suposta “estagnação” do interior potiguar.
Há, porém, uma questão fundamental: o número divulgado pelo IBGE é um dado demográfico, e não um diagnóstico completo sobre a economia, a administração pública ou a importância regional de um município.
Lajes aparece na estimativa de 2026 com 10.082 habitantes. No Censo Demográfico de 2022, o município registrou 9.866 moradores. Portanto, a diferença é exatamente de 216 pessoas, equivalente a aproximadamente 2,19% sobre a população censitária de 2022. O número de 9.866 habitantes consta oficialmente na publicação do IBGE referente ao Censo 2022.
Ou seja: houve crescimento populacional no período, ainda que moderado.
Isso é muito diferente de afirmar que Lajes “encolheu” ou que o município deixou de exercer sua função regional.
O primeiro erro é transformar população em sinônimo de desenvolvimento
Uma cidade não pode ser avaliada exclusivamente pela quantidade de pessoas que vivem dentro de seus limites territoriais.
Se fosse assim, municípios pequenos jamais poderiam exercer funções econômicas, educacionais, comerciais, administrativas ou de prestação de serviços para uma população regional muito maior que a sua.
E é justamente nesse ponto que Lajes merece uma análise mais cuidadosa.
Documentos oficiais e estudos sobre o município apontam sua localização estratégica na Região Central do Rio Grande do Norte. Material do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional identifica Lajes dentro da estrutura territorial do Estado e registra indicadores socioeconômicos do município.
Além disso, levantamento acadêmico da UFRN caracteriza Lajes como município da Região Central, destacando sua localização e a existência do Polo de Apoio Presencial da Universidade Aberta do Brasil.
Portanto, ser polo regional não significa necessariamente possuir dezenas de milhares de habitantes. Significa exercer funções que ultrapassam o tamanho da população residente.
Lajes não deixou de ser cidade-polo
Historicamente, Lajes se consolidou como ponto estratégico de circulação entre diferentes áreas do Estado.
A própria formação territorial do município está relacionada à sua posição como ponto de passagem e conexão. Estudo do IFRN registra que Lajes se desenvolveu como local de encontro e descanso de boiadeiros e fazendeiros e, posteriormente, ganhou importância com a chegada da estrada de ferro. O mesmo estudo aponta que comércio e serviços possuem peso expressivo na economia local.
Esse papel não desaparece porque uma estimativa populacional acrescentou 216 moradores em quatro anos.
Pelo contrário: a função de uma cidade-polo deve ser analisada também pela capacidade de atrair pessoas de municípios vizinhos para comércio, saúde, educação, serviços públicos, eventos, atividades econômicas e circulação regional.
É justamente aí que a análise exclusivamente populacional se torna limitada.
E há outro ponto que precisa ser esclarecido: o RN inteiro enfrenta um problema demográfico
O dado divulgado pelo IBGE mostra que o problema não é exclusivamente de Lajes.
O Rio Grande do Norte foi estimado em 3.463.737 habitantes em 2026, uma redução de 8.501 moradores em relação à estimativa de 2025. Dos 167 municípios potiguares, 57 apresentaram redução populacional no período.
Portanto, existe, sim, um fenômeno demográfico importante no Estado.
Mas colocar Lajes como símbolo isolado de “estagnação” exige muito mais evidências.
A comparação correta deveria considerar saldo migratório, natalidade, mortalidade, envelhecimento populacional, mercado de trabalho, renda, PIB, número de empresas, investimentos, arrecadação, infraestrutura e capacidade de prestação de serviços, entre outros indicadores.
Um único número não responde a todas essas perguntas.
A administração pública também não pode ser ignorada
Outro ponto que merece correção é a afirmação de que Lajes estaria sem investimentos ou sem planejamento administrativo.
Os documentos oficiais do próprio município mostram uma estrutura de planejamento para o período 2026–2029, com metas específicas para educação, saúde, assistência social, infraestrutura, esporte, inclusão, turismo, inovação, transparência e fortalecimento de parcerias.
Na educação, por exemplo, o Plano Plurianual registra que o município aplicou 25,08% da receita de impostos em 2023 e 25,10% em 2024, acima do mínimo constitucional de 25% previsto para a área. O documento também estabelece objetivos relacionados à melhoria da qualidade do ensino, formação de professores, inclusão educacional e recomposição das aprendizagens.
Na saúde, a legislação orçamentária municipal para 2026 prevê ações de manutenção e ampliação das unidades, aquisição de equipamentos e fortalecimento das equipes multiprofissionais.
O orçamento municipal de 2026 também demonstra a dimensão dos recursos destinados às diferentes áreas. O Fundo Municipal de Saúde possui previsão superior a R$ 39,1 milhões, enquanto a Secretaria de Infraestrutura e Serviços Urbanos possui previsão superior a R$ 12,8 milhões.
Isso não significa que todos os problemas estejam resolvidos — longe disso. Toda administração pública deve ser fiscalizada, cobrada e submetida ao contraditório.
Mas também não é jornalisticamente correto transformar a existência de problemas urbanos ou desafios econômicos em uma afirmação absoluta de que “não existe atrativo nenhum”.
Turismo e economia também estão no planejamento
Outro exemplo é o turismo.
A Lei de Diretrizes Orçamentárias de Lajes para 2026 prevê o projeto “Visite Lajes”, além de ações de promoção turística, festas populares e eventos culturais e tradicionais.
Isso mostra que existe uma estratégia institucional para explorar justamente uma das características que podem fortalecer a posição regional do município: turismo, cultura, eventos e identidade territorial.
Lajes também está inserida em uma região que vem buscando uma atuação integrada no turismo, com a estruturação da governança regional Cabugi Central envolvendo municípios como Lajes, Angicos, Pedro Avelino e Fernando Pedroza.
Portanto, dizer que a cidade “não tem atrativo nenhum” é uma opinião. Não é uma conclusão que possa ser extraída de uma tabela populacional do IBGE.
O desafio real existe — e precisa ser discutido
Isso não significa ignorar o número apresentado pelo IBGE.
Ao contrário.
216 novos habitantes em quatro anos não representam um crescimento demográfico expressivo. Esse dado merece atenção e deve entrar no debate sobre o futuro de Lajes.
Uma cidade com papel regional precisa pensar permanentemente em como atrair novos moradores, empresas, investimentos, estudantes, profissionais e atividades econômicas.
O desafio está posto.
Mas a resposta não pode ser simplesmente: “Lajes está estagnada”.
A pergunta mais importante é:
Como transformar a posição estratégica de Lajes em crescimento econômico, geração de empregos, atração de investimentos e aumento da população residente?
Essa é uma discussão muito mais séria.
População não é tudo — mas também não é irrelevante
O número de 10.082 habitantes deve ser acompanhado nos próximos anos.
Se Lajes continuar crescendo lentamente, será necessário compreender por que isso acontece e quais políticas podem mudar essa trajetória.
Mas, ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que uma cidade pode crescer economicamente e exercer influência regional mesmo sem apresentar explosão populacional.
O próprio histórico de Lajes demonstra essa característica.
A cidade não precisa ter 20 mil ou 30 mil habitantes para ser importante.
Sua relevância está também naquilo que oferece, na circulação que produz, nos serviços que concentra, na localização estratégica, na atividade comercial, na educação, na saúde, na cultura, no turismo e na capacidade de atender uma região que ultrapassa seus limites administrativos.
A conclusão correta
O IBGE oferece um alerta demográfico. Não oferece um atestado de fracasso administrativo.
Lajes saiu de 9.866 habitantes no Censo de 2022 para uma estimativa de 10.082 em 2026, crescimento de 216 pessoas.
É pouco? Sim, é um crescimento modesto.
É motivo para planejamento? Sem dúvida.
É prova de que a cidade perdeu sua condição de polo regional, deixou de ter importância econômica ou “não tem mais atrativos”? Não. Essa conclusão não está nos números do IBGE.
O debate que Lajes precisa fazer é maior: como aproveitar sua condição histórica e estratégica de cidade-polo do Sertão Central Cabugi para transformar localização, serviços, educação, turismo, comércio, infraestrutura e investimentos em crescimento econômico sustentável e, consequentemente, em maior capacidade de retenção e atração de população.
Esse é o debate que interessa à cidade.
E esse, sim, merece ser feito com números, contexto e responsabilidade, e não apenas com uma manchete de impacto.
Fontes: IBGE; Prefeitura de Lajes; Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional; UFRN; IFRN.
Por Júnior Guilherme
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