Brasil amplia exportações, supera EUA e projeta liderança em lista de potências agrícolas


 Agricultores trabalhando na colheita Valter Campanato / Agência Brasil

O Brasil reúne condições para ampliar sua posição entre as maiores potências agrícolas do mundo e reduzir a tal ponto a distância que o separa dos Estados Unidos no comércio internacional de alimentos, tornando-se a maior potência mundial agrícola. O crescimento da produção de grãos, a liderança em commodities como soja, café, açúcar e carnes e a expansão das exportações colocam o país em posição de disputar mercados tradicionalmente dominados pelos norte-americanos.

Conforme o jornal Financial Times, superar os Estados Unidos em todos os indicadores agrícolas tornou-se uma questão de tempo. Em sua coluna no UOL, o jornalista Nelson de Sá entrevistou Larissa Wachholz, ex-assessora do Ministério da Agricultura, que disse a ele que o quadro já é de empate neste início do quarto trimestre de 2026. Em commodities, uma das bases da economia global, o Brasil lidera em soja, café, algodão, suco de laranja e carnes.

O tarifaço imposto por Donald Trump pode ser tratado como um fator que acelerou a busca brasileira por novos mercados e reforçou a discussão sobre a posição do país no comércio agrícola mundial. A China se consolidou como o principal destino das exportações agropecuárias brasileiras neste cenário.

Em 2025, comprou US$ 55,3 bilhões em produtos do setor, o equivalente a 32,7% das exportações brasileiras do agronegócio, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). A União Europeia veio em seguida, com US$ 25,2 bilhões, e os Estados Unidos ocuparam a terceira posição, com US$ 11,4 bilhões.

Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), do Mapa, do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) e de organismos internacionais apontam para a continuidade da expansão brasileira.

Em 2025, as exportações do agronegócio brasileiro alcançaram US$ 169,2 bilhões, segundo o Mapa, um recorde e um crescimento de 3% em relação ao ano anterior. O setor respondeu por 48,5% de todas as vendas externas do país. O superávit comercial do agronegócio chegou a US$ 149,07 bilhões, resultado da diferença entre exportações e importações do setor.

A soja em grãos permaneceu como principal produto da pauta, com US$ 43,5 bilhões em receitas e embarques de 108,2 milhões de toneladas. A carne bovina também registrou recorde, com US$ 17,9 bilhões em exportações. O desempenho demonstra a capacidade brasileira de abastecer o mercado interno e manter grandes volumes destinados ao comércio internacional.

Esse crescimento, no entanto, também está associado à pressão sobre os biomas brasileiros, terras indígenas e áreas de proteção ambiental, bem como em flagrantes de trabalhadores submetidos a situações análogas à escravidão.

A expansão da produção sem desmatamento adicional, com recuperação de pastagens degradadas e melhoria do rendimento por hectare, além da proteção e garantia das terras indígenas e áreas de proteção e proteção aos trabalhadores, permanece entre os principais desafios para a sustentabilidade do setor.

A perspectiva de avanço brasileiro aparece igualmente nas projeções da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), ligado à Organização das Nações Unidas (ONU).

No Agricultural Outlook 2026-2035, os organismos indicam que o comércio internacional continuará desempenhando papel central no abastecimento mundial e destacam a influência de Brasil, Argentina e Paraguai na oferta agrícola global. As projeções apontam para ganhos de produtividade como principal motor da expansão da produção na próxima década.

Governo Lula amplia recursos para financiamento rural

A política de crédito rural é outro fator que pode influenciar o crescimento da produção brasileira. Desde 2023, o governo Luiz Inácio Lula da Silva ampliou os recursos anunciados nos Planos Safra, que financiam operações de custeio, comercialização e investimento de produtores rurais.

Segundo a apresentação oficial do Plano Safra 2025/2026, do Ministério da Agricultura, os recursos disponibilizados aos produtores passaram de R$ 340 bilhões em 2022 para R$ 516,2 bilhões em 2025, um aumento nominal de aproximadamente 42%. A série divulgada pelo ministério reúne os volumes apresentados para cada ano e deve ser interpretada como disponibilidade de financiamento, não como despesa direta do Tesouro Nacional.

Na comparação dos Planos Safra voltados à agricultura empresarial, os valores anunciados foram de R$ 340,88 bilhões na temporada 2022/2023, durante o governo Jair Bolsonaro; R$ 364,22 bilhões em 2023/2024; R$ 400,59 bilhões em 2024/2025; e R$ 516,2 bilhões em 2025/2026, segundo os anúncios oficiais de cada edição.

Como a composição das fontes de financiamento e a forma de contabilização variam entre os planos, a comparação exige cuidado: o total anunciado não corresponde necessariamente ao volume efetivamente contratado ou desembolsado.

No Plano Safra 2025/2026, o governo informou que R$ 415 bilhões seriam destinados a operações de custeio e comercialização, enquanto R$ 102 bilhões ficariam disponíveis para investimentos produtivos. O plano também ampliou linhas voltadas à modernização tecnológica, à armazenagem, à irrigação e à recuperação de áreas degradadas.

A agricultura familiar recebeu recursos próprios por meio do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), separado do Plano Safra empresarial. Essa distinção é importante porque as políticas de financiamento atendem públicos diferentes e não devem ser somadas ou comparadas sem explicitar seus respectivos componentes.

O aumento nominal dos recursos pode ampliar a capacidade de investimento e facilitar a aquisição de máquinas, insumos e equipamentos. Mas os efeitos sobre a produção dependem das taxas de juros, do acesso efetivo ao crédito, dos custos de financiamento e da capacidade de os produtores transformarem os recursos em ganhos de produtividade.

Safras recordes e ganhos de produtividade

A expansão da produção é um dos principais fatores que sustentam a perspectiva de crescimento do Brasil. No levantamento divulgado em setembro de 2026, a Conab estimou em 361,7 milhões de toneladas a produção brasileira de grãos na safra 2025/2026, aumento de 2,6% em relação ao ciclo anterior. A área plantada foi estimada em 83,5 milhões de hectares.

A soja deve alcançar 180,4 milhões de toneladas, enquanto a produção de milho está estimada em 144 milhões de toneladas. Os dois resultados estão entre os maiores já registrados no país e ampliam a oferta de matérias-primas para a indústria de alimentos, a produção de rações e a fabricação de biocombustíveis.

Para a safra 2026/2027, as perspectivas divulgadas pela Conab em setembro apontam para uma produção de até 366,6 milhões de toneladas de grãos. A projeção considera o aumento da área cultivada e o desempenho esperado das principais lavouras, mas sujeita às condições climáticas e à evolução do plantio.

A pesquisa agropecuária, o desenvolvimento de variedades adaptadas às condições tropicais, a mecanização, a agricultura de precisão e a integração entre lavoura e pecuária contribuíram para elevar a produtividade ao longo das últimas décadas.

O próprio USDA reconhece a transformação da agricultura brasileira, que passou de exportadora de um conjunto limitado de produtos tropicais a fornecedora mundial de soja, milho, algodão, açúcar, carnes e etanol. Em análise sobre o país, o órgão norte-americano atribui parte desse avanço à pesquisa agrícola, aos investimentos públicos e privados em tecnologia e à expansão da produção no Cerrado.

A Embrapa teve papel importante nesse processo, especialmente no desenvolvimento de cultivares adaptadas a solos e condições climáticas que, no passado, limitavam a produção em áreas do interior do país. O resultado foi a expansão da fronteira agrícola e o aumento da produtividade em regiões do Centro-Oeste e do Matopiba, que abrange áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

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