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Quase cinco anos após o início de sua luta pela sobrevivência nacional, a Ucrânia entrou em um momento de intensa vulnerabilidade, sob crescente pressão não apenas da Rússia, mas agora também dos Estados Unidos.
Um duplo golpe ocorreu na madrugada desta quarta-feira, 14.
A Ucrânia informou que suas forças armadas, sem aviso prévio, perderam acesso a uma versão militar do Starlink, um pilar de suas comunicações no campo de batalha. Kiev depende da rede de internet via satélite, conhecida como Starshield, que é financiada pelo Pentágono. Isso levou autoridades e analistas ucranianos a supor que as restrições tivessem vindo de Washington, já que o presidente Donald Trump está envolvido em sua mais recente disputa com a liderança ucraniana.
Ao mesmo tempo, a Rússia lançou dezenas de mísseis balísticos em um amplo ataque à infraestrutura energética da Ucrânia na madrugada desta quarta-feira, cortando o fornecimento de energia para 600 mil pessoas na capital, Kiev. Foi um mau presságio para um inverno que se aproxima rapidamente, no qual a Rússia se prepara para tentar levar a Ucrânia ao limite, enquanto Kiev fica sem defesas aéreas essenciais à sobrevivência.
Não ficou claro por quanto tempo as restrições ao Starshield permanecerão em vigor. Ainda assim, a forma como o governo Trump tem tratado a Ucrânia causou indignação em um país que já se debate com uma série de desafios.
Seu sistema energético corre risco de colapso nos próximos meses, à medida que a Rússia bombardeia usinas de energia e subestações, tentando privar os ucranianos de aquecimento e água. Sua economia está sendo levada ao limite pelos ataques russos a seus portos, armazéns e siderúrgicas. E seu orçamento enfrenta um déficit de bilhões de dólares neste ano e no próximo, o que poderia deixar suas forças armadas gravemente subfinanciadas.
O desenvolvimento do Starshield foi interpretado na Ucrânia como parte de uma campanha de pressão do governo Trump para limitar a capacidade de combate do país. Trump está pressionando Kiev a parar de atacar refinarias de petróleo para que a Rússia possa injetar mais diesel nos mercados globais, já que os preços altos ameaçam as perspectivas do Partido Republicano de Trump nas eleições de meio de mandato.
“Claramente, essa ação não pode ser uma coincidência e está ligada à atual situação política”, escreveu Serhiy Beskrestnov, um especialista militar ucraniano que assessora o presidente Volodmir Zelenski em tecnologias de armamento, nas redes sociais sobre as restrições ao Starlink.
A SpaceX, que opera o Starlink e o Starshield, e seu diretor executivo, Elon Musk, não responderam aos pedidos de comentário. O Pentágono não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.
A Ucrânia ficou surpresa ao descobrir as restrições ao Starshield, que, segundo ela, causaram interrupções em várias operações de combate. As Forças Armadas ucranianas utilizam o Starshield, em parte, para guiar suas frotas cada vez maiores de drones, incluindo interceptadores usados para derrubar drones russos. As restrições, segundo autoridades ucranianas, amarraram as mãos da Ucrânia, enquanto deixavam a Rússia livre para travar a guerra.
Talvez em nenhum outro lugar esse desequilíbrio tenha ficado mais claro do que no ataque aéreo russo durante a madrugada. A investida incluiu 39 mísseis balísticos, disse Zelenski. Essa seria a maior salva desse tipo em toda a guerra, de acordo com um conjunto de dados do New York Times baseado em números da Força Aérea Ucraniana.
Mesmo com a Rússia bombardeando a Ucrânia dia após dia, levando a um dos maiores números de mortes de civis registrados em anos de guerra, Kiev afirma que está cumprindo a exigência de Trump de não atacar refinarias de petróleo russas. Sua campanha contra as refinarias, que havia levado à escassez de combustível em toda a Rússia, fez com que os russos sentissem a guerra como nunca antes.
Kiev afirmou que é injusto que a Rússia continue atacando usinas de energia e subestações da Ucrânia. Zelenski afirmou que os ataques violam o cessar-fogo energético autodeclarado por Trump na Ucrânia. O governo Trump considera que o cessar-fogo abrange apenas ataques a refinarias de petróleo, embora a Ucrânia não tenha nenhuma em operação.
Foto: GENYA SAVILOV/AFP
A Ucrânia deixou de lado sua ferramenta mais potente contra a Rússia, em parte porque teme que Trump possa cumprir uma aparente ameaça de interromper o fornecimento de informações de inteligência de que Kiev precisa para alertar sua população sobre ataques russos iminentes.
Embora os parceiros europeus da Ucrânia tenham, até o momento, agido para cobrir os crescentes déficits orçamentários do país enquanto a Rússia castiga a economia ucraniana, acredita-se que a Europa não seja capaz de suprir totalmente as lacunas de inteligência caso os Estados Unidos decidam se retirar.
Os temores ucranianos se intensificaram nos últimos dois dias, depois que Zelenski informou que a Ucrânia não recebeu alertas antecipados sobre os ataques com mísseis russos, embora Trump tenha afirmado na terça-feira, 13, que as informações de inteligência ainda estavam sendo compartilhadas.
A Força Aérea ucraniana esclareceu na quarta-feira que, embora não tivesse recebido nenhum aviso prévio antes de um míssil russo atingir o país por volta das 22h40 de terça-feira, recebeu alertas relacionados a três ondas subsequentes de ataques naquela noite. Esse compartilhamento de inteligência é independente do uso do sistema Starshield pela Ucrânia.
Serhii Sternenko, ex-assessor do Ministério da Defesa da Ucrânia, afirmou que era revoltante que Kiev tivesse atendido à exigência de Trump de interromper os ataques às refinarias de petróleo russas e, aparentemente, tivesse recebido apenas mais restrições em troca.
“Trump estava à procura de qualquer oportunidade para minar nossas capacidades de defesa”, escreveu Sternenko nas redes sociais.
As restrições ao Starshield, caso continuem, poderiam prejudicar as operações militares da Ucrânia. Os terminais do Starshield são usados para praticamente tudo o que o Exército ucraniano mobiliza no campo de batalha: os veículos que transportam tropas e material, os drones que levam alimentos e água aos soldados na linha de frente e os drones de ataque que voam longas distâncias para atingir posições russas.
As Forças Armadas ucranianas utilizam milhares de terminais conectados ao Starshield, uma versão da rede Starlink que é mais difícil de ser hackeada ou bloqueada. Musk afirmou no início deste ano que o Starshield era “operado pelo governo dos EUA”.
Autoridades do Ministério da Defesa da Ucrânia afirmaram na quarta-feira que, sem aviso prévio, a SpaceX havia restringido o uso do Starshield para dispositivos que viajassem a mais de 160 quilômetros por hora. Quando o dispositivo ultrapassava essa velocidade, os terminais perdiam a conexão. As autoridades afirmaram que o ministério estava em contato com o governo dos EUA, a SpaceX e os parceiros da Otan para resolver a questão.
Soldados ucranianos afirmaram que as missões foram interrompidas como resultado disso. Oleksandr, um oficial do 8º Corpo de Assalto Aéreo, disse que as restrições afetaram principalmente bombardeiros pesados e drones de asa fixa que tinham como alvo rotas logísticas russas e posições em território ocupado. Ele falou sob a condição de ser identificado apenas pelo primeiro nome, em conformidade com as regras militares ucranianas.
Oleksandr disse que, se as restrições permanecessem em vigor, a Rússia seria capaz de reabrir rotas de abastecimento cruciais em questão de dias e poderia proteger melhor equipamentos caros, incluindo navios, contra ataques ucranianos.
O Starshield também fornece conexões com os drones interceptadores que a Ucrânia usa para derrubar os drones de ataque russos conhecidos como Shaheds, especialmente os modelos a jato de alta velocidade que a Rússia está lançando agora em massa contra a Ucrânia, disse Beskrestnov, assessor de tecnologia militar de Zelenski.
“Na prática, as ações de nossos parceiros estão nos privando de uma das poucas maneiras que temos de defender o país contra os Shaheds movidos a jato”, disse Beskrestnov.
Na quarta-feira, mensagens oficiais de chat digital entre unidades militares na linha de frente alertaram soldados que dirigiam veículos e pilotos que operavam drones de que a velocidade de funcionamento do Starlink havia sido reduzida, de acordo com conversas vistas por um repórter do The Times.
O Starlink não opera na Rússia, o que significa que as restrições não estão relacionadas às exigências de Trump de que a Ucrânia interrompa seus ataques a refinarias de petróleo. Em vez disso, as restrições parecem ter sido concebidas para prejudicar a capacidade da Ucrânia de lutar dentro de seu próprio território, justamente quando suas forças estão recuperando território por meio de contra-ataques.
Enquanto a Ucrânia enfrenta o novo desafio do Starshield, a Rússia está intensificando sua campanha contra o sistema energético ucraniano, com o objetivo de tornar a vida insuportável para os civis, afirmam autoridades ucranianas.
O ataque ocorrido na madrugada de quarta-feira atingiu todas as três usinas de cogeração de Kiev, escreveu o primeiro-ministro Serhii Koretskyi nas redes sociais.
O ataque seguiu-se a uma série de ataques à infraestrutura energética no início deste mês, que causaram cortes de energia e água em Kiev — um sinal de que agora bastam poucos ataques para incapacitar uma rede elétrica já devastada por anos de ataques.
Estadão



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