Imagem ilustrativa / Portal N10.
Um programa de reabilitação que combina cinco modalidades de exercícios assistidos por robôs apresentou resultados superiores aos do tratamento convencional em crianças com paralisia cerebral. A conclusão é de um estudo clínico publicado neste domingo (1º) na revista científica Scientific Reports, que acompanhou 60 participantes durante seis meses e identificou melhorias na capacidade de realizar movimentos, no equilíbrio e em aspectos da qualidade de vida.
O experimento foi realizado por pesquisadores da Universidade Yonsei, na Coreia do Sul, em colaboração com especialistas de instituições norte-americanas, incluindo o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e a Universidade Johns Hopkins. As crianças tinham, em média, 10,4 anos e apresentavam limitações motoras classificadas nos níveis II e III do Sistema de Classificação da Função Motora Grossa, abrangendo participantes capazes de caminhar, embora alguns necessitassem de dispositivos auxiliares.
Os pesquisadores dividiram os participantes aleatoriamente em dois grupos de 30 crianças. Enquanto um recebeu a reabilitação comunitária convencional, o outro participou de um programa chamado RoboGym, que reúne diferentes equipamentos de assistência ao movimento em um circuito de exercícios. Os dois grupos tiveram a mesma duração de atendimento: sessões de 90 minutos, duas vezes por semana, durante seis meses.
Ao final do acompanhamento, os resultados favoreceram o grupo que utilizou os equipamentos robóticos, principalmente nas avaliações de movimentos amplos do corpo e de equilíbrio. Os cientistas também identificaram diferenças positivas nos indicadores de funcionamento emocional e social. A descoberta sugere que a combinação de tecnologias de assistência pode ampliar os benefícios da fisioterapia, embora ainda não demonstre que o método seja adequado para todas as crianças com paralisia cerebral.
O que mudou nos movimentos das crianças após seis meses?
A principal avaliação utilizou a escala GMFM-66, instrumento empregado para medir habilidades motoras como manter determinadas posições, ficar de pé, caminhar e executar movimentos relacionados à mobilidade. No grupo RoboGym, a posição média dos participantes nos percentis de referência da escala avançou do 36º para o 48º percentil. Já o grupo submetido à reabilitação convencional permaneceu próximo dos valores iniciais.
Esse avanço representa uma melhora na posição relativa dos participantes nas referências da avaliação, e não um aumento de 12% na capacidade de caminhar. A diferença entre os grupos também foi estatisticamente significativa na escala pediátrica de equilíbrio, indicando resultados favoráveis ao programa robótico em duas das principais medidas utilizadas no estudo.
Os pesquisadores observaram ainda que uma proporção maior de crianças do grupo RoboGym ultrapassou o limite mínimo de mudança detectável nas avaliações funcionais. Dependendo do indicador, esse percentual variou de 37% a 63% entre os participantes que utilizaram os robôs, contra 17% a 27% no tratamento convencional.
Nem todos os resultados, entretanto, apresentaram diferenças estatisticamente significativas. As avaliações de independência funcional e do componente físico da qualidade de vida apontaram tendências favoráveis à reabilitação robótica, mas não atingiram o nível estatístico necessário para confirmar superioridade nesses indicadores.
Como funciona a reabilitação assistida por robôs?
O programa RoboGym utiliza um circuito de cinco modalidades de treinamento que auxiliam a realização de movimentos por meio de equipamentos motorizados e sistemas de suporte corporal. Entre os recursos estudados estão tecnologias de assistência à marcha, exercícios de membros superiores e inferiores, ciclismo motorizado e movimentos que simulam atividades terapêuticas específicas.
A proposta é permitir que a criança pratique movimentos repetidos, com assistência ajustada às suas necessidades e às limitações de mobilidade. O treinamento também pode facilitar a realização de exercícios que exigiriam maior esforço físico ou apoio contínuo de profissionais durante a fisioterapia convencional.
O uso desses equipamentos não elimina a participação dos fisioterapeutas. Os profissionais continuam responsáveis por acompanhar os exercícios, ajustar os movimentos e avaliar a resposta de cada participante. O estudo investigou os efeitos do circuito combinado, não a eficácia isolada de cada robô utilizado.
Tratamento com robôs pode beneficiar todas as crianças com paralisia cerebral?
Os resultados são considerados promissores pelos autores, mas existem limitações importantes. O estudo envolveu apenas 60 crianças, todas com perfis específicos de mobilidade, e foi realizado em um programa comunitário de reabilitação. Por isso, não é possível afirmar que os mesmos benefícios seriam observados em crianças com comprometimentos motores mais graves ou em serviços com estruturas diferentes.
A pesquisa também não estabelece quanto tempo os ganhos podem permanecer depois da interrupção do treinamento. Para os cientistas, será necessário realizar novos ensaios clínicos, com maior número de participantes e diferentes centros de atendimento, antes de recomendar a implantação generalizada do método.
A paralisia cerebral reúne condições que afetam o movimento, a postura e o equilíbrio em consequência de alterações no desenvolvimento ou de lesões no cérebro em formação. Não existe uma cura para a condição, mas os cuidados de reabilitação podem favorecer a autonomia e a participação nas atividades cotidianas. As diretrizes do Ministério da Saúde recomendam acompanhamento multiprofissional, considerando as necessidades individuais e as diferentes etapas da vida.
O trabalho acrescenta novas evidências ao uso de tecnologias na recuperação de habilidades motoras, área que também vem sendo investigada em outras condições neurológicas, como na reabilitação com realidade virtual após o AVC. No caso da paralisia cerebral, a principal contribuição do RoboGym está nos resultados de um programa estruturado que combina diferentes formas de assistência robótica, sem substituir a necessidade de tratamento individualizado.
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