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Uma tecnologia desenvolvida a partir de pesquisas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) pretende diminuir o incômodo causado pelo barulho de turbinas eólicas em comunidades próximas aos parques de geração. O equipamento, criado pelo pesquisador Felipe Neves, deverá ser instalado dentro das residências, especialmente nos quartos, para atuar sobre o som repetitivo produzido pelos aerogeradores. A previsão é iniciar os testes com moradores em 2027.
Batizado de PER (Perturbador de Envelope Rítmico), o dispositivo utiliza processamento digital de sinais sonoros em tempo real. A proposta não é eliminar completamente o ruído, mas modificar a forma como sua repetição é percebida, tornando o ambiente menos perturbador durante o descanso. O diferencial é que o equipamento não exige intervenções nas turbinas nem a redução da geração de eletricidade.
A solução está sendo desenvolvida pela startup potiguar Jupitera, incubada no Parque Tecnológico Metrópole Digital da UFRN. O projeto já passou por simulações computacionais e verificações em bancada, além da construção de um protótipo físico em escala real com impressão 3D. Ainda não existem resultados de testes em residências que comprovem a eficácia do equipamento sobre a qualidade do sono, etapa prevista para o próximo ano.
O problema que motivou a pesquisa já provocou disputas judiciais no Rio Grande do Norte. Em 2024, a Justiça estadual condenou uma empresa de energia eólica a indenizar em R$ 50 mil um morador da Serra de Santana por poluição sonora. Naquele processo, uma perícia constatou ruídos acima dos limites permitidos na residência, especialmente durante o repouso noturno.
O problema não está apenas no volume do barulho das turbinas
A ideia do PER surgiu durante uma aula do mestrado em Gestão, Inovação e Sustentabilidade da UFRN, quando Felipe ouviu relatos sobre moradores que enfrentavam dificuldades para dormir nas proximidades de parques eólicos. Ao visitar comunidades atingidas pelo problema, percebeu que as reclamações não estavam necessariamente relacionadas a sons muito altos, mas à repetição constante do barulho provocado pela passagem das pás.
O contato com os moradores revelou famílias que associavam mudanças na intensidade do vento ao ritmo das turbinas e relatavam despertares durante a madrugada. “O que mais me marcou foi perceber que ninguém ali era contra a energia eólica. As pessoas tinham orgulho do que o Rio Grande do Norte representa para o Brasil. Elas só queriam voltar a dormir”, conta Felipe.
A característica investigada é conhecida como modulação de amplitude, uma oscilação da intensidade sonora ao longo do tempo. É ela que pode produzir a sensação de um barulho pulsante e contínuo, mesmo quando o volume não parece particularmente elevado. Em vez de atuar diretamente na fonte do som, o PER busca alterar essa regularidade no ambiente onde a pessoa está descansando.
“Foi aí que veio a virada: se o que incomoda é o ritmo, e não só o volume, então a solução precisa agir sobre o ritmo, dentro de casa, sem parar o vento”, explica o pesquisador. Segundo ele, a proposta também responde a uma dificuldade enfrentada pelas empresas de geração, que podem precisar reduzir a operação das turbinas para lidar com determinadas reclamações de ruído.
“O PER não mexe nas turbinas nem nas pás, e essa é justamente a sua força. O parque continua gerando energia normalmente”, afirma. A tecnologia, porém, ainda precisa demonstrar se consegue produzir esse efeito em condições reais de uso, com diferentes intensidades de ruído e características acústicas das residências.
Testes com moradores devem começar em 2027
O desenvolvimento está atualmente entre os níveis 3 e 4 de maturidade tecnológica, conhecidos como TRL, correspondentes à fase de demonstração inicial do funcionamento de uma solução. Antes de chegar às casas, a equipe pretende realizar novos testes em ambiente controlado no Instituto Metrópole Digital.
O projeto-piloto prevê a instalação de equipamentos em residências de voluntários. Parte dos participantes receberá dispositivos inoperantes, sem saber qual versão está utilizando. A comparação entre os grupos deverá permitir avaliar se eventuais melhorias estão relacionadas ao funcionamento do PER ou a outros fatores.
Além das percepções dos moradores, a pesquisa acompanhará indicadores objetivos, incluindo actigrafia, utilizada para monitorar padrões de atividade e repouso, e variabilidade da frequência cardíaca. A intenção é identificar possíveis mudanças no descanso e nas respostas fisiológicas durante a exposição ao ruído. “Vamos provar isso com ciência de verdade”, afirma Felipe ao explicar a metodologia.
A previsão do pesquisador é concluir o desenvolvimento necessário para a chegada inicial do equipamento às residências em aproximadamente nove meses a um ano. “Em 2027 os primeiros PERs vão entrar nas casas, no piloto com voluntários. Nossa meta é ter o equipamento pronto para chegar às residências em cerca de nove meses a um ano”, afirma. O prazo representa uma meta da equipe, não uma data confirmada de comercialização.
Pesquisa da UFRN vence concurso nacional e chega à Alemanha
Mesmo antes da validação em residências, a tecnologia já recebeu reconhecimento no setor de inovação. A Jupitera conquistou o primeiro lugar no Concurso Ideias Inovadoras, promovido pela incubadora Desavexe, vinculada ao Centro de Pesquisa, Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (Cepedi) e ao Hub Salvador. A disputa reuniu 101 propostas de 11 estados, e a startup potiguar recebeu R$ 10 mil pelo primeiro lugar.
O trabalho também foi apresentado no simpósio internacional realizado entre 7 e 9 de outubro, em Halle, na Alemanha, organizado com participação do grupo IEA Wind Task 62, voltado à pesquisa sobre planejamento e aceitação social da energia eólica. O encontro reuniu especialistas para discutir, entre outros temas, os impactos dos parques sobre moradores e os conflitos associados à geração de energia.
“Isso coloca uma pesquisa nascida no Rio Grande do Norte na mesa de quem discute esse tema no mundo”, destaca Felipe, que também mantém interlocução com pesquisadores de ruído ambiental e saúde de países como Holanda, Inglaterra e Austrália.
Paralelamente aos testes, a Jupitera prepara o pedido de patente do PER junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), com participação da Agência de Inovação da UFRN (AGIR) e cotitularidade da universidade. A startup busca investimentos para avançar no desenvolvimento e pretende oferecer serviços de avaliação acústica às operadoras de parques eólicos, ampliando o trabalho de diagnóstico das reclamações feitas pelas comunidades.
Portaln10

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