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quarta-feira, 13 de março de 2024

União Brasil: brigas e acusações de um partido em pé de guerra, debandada de deputados do partido é quase como certa


Foto: Adriano Machado/Crusoé

A direção do União Brasil deu nesta quarta-feira (13) um prazo de 72 horas para que Luciano Bivar explique as ameaças que teria feito a Antônio Rueda. Bivar, atual presidente do partido, está em pé de guerra com Rueda, seu sucessor, eleito semanas atrás. A briga envolve acusações de incêndios criminosos e furto de dinheiro. O Durma com Essa explica a crise e resgata o histórico político dos grupos envolvidos. O programa tem também Mariana Vick falando sobre os 60 anos do discurso de Jango na Central do Brasil e Ana Diniz comentando os entraves para a ascensão de mulheres no setor público.

Transcrição do episódio:


Conrado: Um partido recém-criado, fruto de uma fusão de grupos que tão na vida pública faz tempo. Um partido que tem a palavra União no nome, mas que na verdade nunca conseguiu coesão de fato. Um partido que está em pé de guerra, com brigas, suspeitas de ameaça de morte, incêndios e acusações de furto. Eu sou o Conrado Corsalette e este aqui é o Durma com Essa, o podcast de notícias do Nexo.


Aline: Olá, eu sou a Aline Pellegrini e estou aqui com o Conrado para apresentar este podcast que vai ao ar de segunda a sexta, no início da noite, sempre com notícias que podem continuar a ecoar por aí. 


Conrado: Quarta-feira, 13 de março de 2024. Dia em que a direção do União Brasil deu 72 horas para o presidente do partido, o deputado federal Luciano Bivar, explicar as suspeitas de ameaça de morte que ele teria feito contra o futuro sucessor, o advogado Antônio Rueda.


Aline: O União Brasil abriu um procedimento interno para avaliar o caso, que não é mais, aliás, apenas um caso de política. Já virou caso de polícia. Mas antes de avançar pelas entranhas dessa briga vale lembrar aqui de que partido exatamente a gente está falando.


Conrado: O União Brasil é uma fusão de outros dois partidos, o PSL, Partido Social Liberal, e o DEM, ou Democratas. 


Aline: O PSL era um partido pequeno. E o Luciano Bivar já era o dono da legenda desde lá de trás. Deputado federal por Pernambuco, ele ganhou destaque atuando na “bancada da bola” da Câmara. 


Conrado: O advogado Antônio Rueda também era dirigente do PSL quando o partido era pequeno. O Bivar e o Rueda, aliás, tinham negócios em comum. Ambos participavam de empresas que receberam milhões da Seguradora Líder, responsável pela gestão do seguro DPVAT. O DPVAT é um seguro que é pago por todos os proprietários de veículos na hora de quitar o IPVA e que é acionado para indenizar vítimas de acidentes de trânsito. 


Aline: Politicamente, o grande negócio da dupla Bivar e Rueda foi a filiação do Jair Bolsonaro ao PSL em 2018. Na prática, entregou o PSL para que o então deputado federal pelo Rio de Janeiro disputasse o Palácio do Planalto. E por que foi um grande negócio? Na onda de extrema direita que elegeu Bolsonaro naquele ano, o partido virou a segunda maior bancada da Câmara. E é a bancada da Câmara que determina quanto tempo de TV tem um partido e quanto dinheiro ele recebe de fundos públicos.


Conrado: Com o Bolsonaro eleito, o Bivar atuou para retomar o controle do partido, abrindo uma disputa com os bolsonaristas que tinham se filiado a ele. O então presidente da República logo deixou o PSL. O Bivar chegou a ser alvo de uma operação da Polícia Federal, num inquérito que investigou candidaturas de fachada do partido em 2018.


Aline: Bom, o DEM, também conhecido como Democratas, nada mais é do que o antigo PFL, o Partido da Frente Liberal, um dos braços egressos da Arena, que dava sustentação para a ditadura militar. 


Conrado: Na Nova República, após a redemocratização do país, o partido reuniu históricos da política nacional e de oligarquias locais, como Antonio Carlos Magalhães, na Bahia, e o Jorge Bornhausen, em Santa Catarina. 


Aline: Nos primeiros governos após a ditadura, o PFL foi governo com José Sarney, Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso. O partido tinha a vaga de vice do tucano, com Marco Maciel, aliás. 


Conrado: Quando o PT chegou à Presidência com Luiz Inácio Lula da Silva em 2003, o PFL foi para a oposição. Só voltou ao círculo central do poder em Brasília com o impeachment da Dilma Rousseff em 2016 e a ascensão do vice Michel Temer. O partido, já rebatizado de DEM, também emplacou ministros no governo seguinte, do Jair Bolsonaro.


Aline: Mas e o União Brasil? Bom, a fusão de PSL e DEM foi selada em 2021 e confirmada no ano seguinte pelo Tribunal Superior Eleitoral. O novo partido passou a ser chamado de partido do bilhão, já que a fusão garantiu uma grande bancada na Câmara e, portanto, repasses vultosos de fundos públicos no ano das eleições de 2022.


Conrado: Na disputa presidencial daquele ano, o União Brasil lançou a senadora Soraya Thronicke, do Mato Grosso do Sul, como candidata, mas ela não teve nem 1% dos votos. No segundo turno, o partido ficou oficialmente neutro. Afinal, essa condição permitiria manter proximidade com o poder ganhasse o Bolsonaro ou ganhasse o Lula.


Aline: Com Lula eleito, o União Brasil garantiu ministérios, mas não garantiu apoio no Congresso. Está no poder, mas não é um membro efetivo da base aliada. Aqueles coisas do presidencialismo de coalizão brasileiro.


Conrado: Bom, agora que você já está familiarizado com o partido, vamos entender que briga é essa que tá acontecendo dentro dele.


[mudança de trilha]


Aline: Desde a oficialização do partido, o Luciano Bivar se manteve no comando do União Brasil. Mas aos poucos um outro dirigente, o advogado Antônio Rueda, foi ganhando terreno em Brasília. O Rueda foi um dos artífices da fusão entre o PSL e o DEM. 


Conrado: O advogado é considerado um bom articulador. Ele manteve laços com a família Bolsonaro e se aproximou de figuras como o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e o presidente da Câmara dos Deputados, o Arthur Lira, do PP alagoano.


Aline: O Rueda então conseguiu vencer a convenção do União Brasil realizada no final de fevereiro agora. Ele teve ajuda de figuras importantes do antigo DEM, como o Antonio Carlos Magalhães Neto, o ACM Neto. O Bivar não gostou. Tentou uma virada de mesa, tentou cancelar a convenção, mas não teve sucesso. E aí começou a briga. 


Conrado: Depois da convenção, o Rueda foi à polícia para dizer que ele e sua família tinham sido ameaçados de morte pelo Bivar. O presidente eleito do União Brasil chegou a apresentar uma gravação que mostrava essas ameaças. 


Aline: A situação já estava para lá de tensa quando agora, na segunda-feira, duas residências da família do presidente eleito do União Brasil em Ipojuca, no litoral sul de Pernambuco, foram atingidas por incêndios. É, as casas pegaram fogo. E o advogado do Rueda, o Paulo Catta Preta, foi à imprensa dar a seguinte declaração:


Paulo: “Desde o dia 26 de fevereiro passado, uma série de ameaças têm sido perpetradas por parte do deputado Luciano Bivar contra Antônio Rueda. Esse cenário inicial se dá no contexto de uma disputa partidária e, num primeiro momento, há a notícia, há a gravação que mostra que o deputado Bivar ameaça diretamente Antônio Rueda e seus familiares” 


Aline: Sim, você ouviu o advogado do Rueda sugerindo que o Bivar mandou botar fogo nas casas. Integrantes do União Brasil, como o governador de Goiás, o Ronaldo Caiado, foram na mesma linha. O Bivar negou as ameaças e chamou as acusações de que seria o mentor dos incêndios de “ilações”. Mas aproveitou para fazer a crise interna do partido subir mais um degrau.


Bivar: “São ilações. Por exemplo: a mulher do presidente foi no meu apartamento também e roubou meu cofre, está certo? Então essas coisas também são acusações”


Repórter: “A mulher do Rueda foi no seu apartamento?”


Bivar: “Eu cedi confiantemente o segredo e ela roubou todo o dinheiro. Eu preciso verificar”


Repórter: “Quanto tinha no cofre?”


Bivar: “Tinha um valor significativo”


Aline: Sim, você ouviu o Bivar dizendo que a esposa do Rueda se hospedou em seu apartamento, um apartamento de Miami, e que, na oportunidade, ela furtou dinheiro do cofre dele. O atual presidente do União Brasil também acusa o futuro sucessor de uso ilegal de fundos de campanha.


Conrado: Toda essa briga vai ser agora avaliada politicamente pela direção do partido. O Bivar pode ter suas atividades suspensas e até ser expulso. O caso também pode chegar ao Conselho de Ética na Câmara dos Deputados. No campo policial, o Rueda pediu que o Supremo autorize uma investigação contra o Bivar por causa dos incêndios.


Aline: Este ano é ano de eleições municipais. E o União Brasil, ou Desunião Brasil, como o partido já foi apelidado, vai ter em mãos algo em torno de meio bilhão de reais para administrar entre suas candidaturas. Pelo menos por ora, ao que tudo indica, é o Antônio Rueda, e não o Luciano Bivar, que vai ficar responsável por isso. E talvez até antes do fim de maio, quando o mandato do atual presidente acabaria. 


[trilha da redação]


Conrado: Em 13 de março de 1964 o então presidente da República, João Goulart, conhecido como Jango, subiu a um palanque na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, para fazer um discurso que teria impactos profundos na história do país. Esse é o tema do primeiro texto da Mariana Vick para a série “Dia a dia do golpe”, em que o Nexo vai resgatar momentos decisivos do desenrolar político no país até a instalação da ditadura militar. Mariana, como foi esse comício? E o que foi dito lá em cima do palanque?


Mariana: “O comício aconteceu durante a noite de 13 de março de 64, organizado pelo chamado Comando Geral dos Trabalhadores. João Goulart discursou por pouco mais de uma hora depois de outros oradores terem falado ao microfone, como o governador de Pernambuco, Miguel Arraes, o então presidente da UNE, José Serra, e o deputado Leonel Brizola. O evento tinha o objetivo de reunir uma base de apoio popular para a defesa das chamadas reformas de base, principal bandeira do presidente na época. Jango tinha tentado propor as mudanças no Legislativo, mas, num momento em que o governo tinha muitas disputas com o Congresso, os deputados e senadores sempre barravam as propostas. No discurso, Jango argumentou a favor as reformas de base — que incluíam a agrária, a urbana, a educacional, a tributária e a eleitoral —, defendeu o direito de voto para analfabetos, cabos e soldados, defendeu a legalização do Partido Comunista e também mudanças na Constituição para cumprir esse programa. Ele fez dezenas de referências à palavra ‘povo’, que, segundo ele, estava acima de seus pares em Brasília. O discurso marcou uma guinada à esquerda do presidente, que no começo do governo, em 1961, tentava adotar uma postura mais conciliadora com setores conservadores da sociedade. Abrindo aspas para o discurso, Jango disse naquele dia que “àqueles que reclamam do Presidente de República uma palavra tranquilizadora para a nação, o que posso dizer é que só conquistaremos a paz social pela justiça social.”


Conrado: E, Mariana, como foi a reação a esse comício e qual foi a sua importância histórica?


Mariana: “Para vários historiadores, o comício na Central do Brasil foi o estopim para o golpe de 64. Os jornais do dia seguinte mostraram diferentes reações ao discurso de Jango. O Globo, por exemplo, noticiou que um manifesto ruralista pedia às Forças Armadas uma ‘mobilização cívica contra o comunismo’, enquanto a Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo publicaram editoriais condenando o evento. Os dois jornais paulistas acusaram o Jango de ter intenções golpistas, por querer fazer reformas sociais que só poderiam ser alcançadas com o que eles consideravam uma ‘violação da Constituição’, e a Folha também conclamou as Forças Armadas para interferir. Para alguns, a insurreição viria de qualquer forma. Quando o antecessor de Jango, Jânio Quadros, renunciou à Presidência em 1961, os militares já tinham tentado impedir a posse do vice sob a alegação de ameaça à ordem e às instituições nacionais. Três antigos ministros acusaram Jango de incentivar “agitações” e de entregar postos-chave nos sindicatos para ‘agentes do comunismo internacional’, principal temor do Ocidente no contexto da Guerra Fria. Para maioria dos historiadores, a acusação de comunismo contra Jango era um exagero — o presidente era trabalhista, e a luta armada, apontada naquela época como risco, só teria adeptos depois do seu governo. Mas não era o que pensavam os articuladores do golpe que viria logo depois.”


Conrado: O texto da Mariana você lê em nexojornal.com.br. O próximo texto vai ser publicado em 19 de março, quando, exatamente 60 anos antes, foi realizada a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em oposição a João Goulart. Não perca!


[trilha ponto futuro]


Aline: Integrantes do Movimento Pessoas à Frente escreveram um artigo em sua coluna para a editoria Ponto Futuro, do Nexo, sobre a desigualdade na ascensão de mulheres no setor público. A Ana Diniz, uma das autoras do texto, fala aqui sobre o tema:


Ana: “Chegamos a mais um 8 de março. E mais uma vez estamos convidados a refletir sobre a participação das mulheres na sociedade de maneira mais ampla, em especial no mercado de trabalho e nos postos de poder e decisão. Nesse texto, a gente convida os leitores e as leitoras a uma reflexão sobre o que que a gente pode fazer para avançar mais. Quando a gente olha para trás é inegável que a gente percorreu um longo caminho, e que muitos avanços já foram conquistados. No entanto, quando a gente olha para a realidade atual, as desigualdades persistem no mercado de trabalho, de maneira geral, e no setor público em particular. Quando a gente olha para a participação das mulheres no setor público, a gente tem uma representatividade geral equitativa em relação aos homens. No entanto, essas mulheres estão mais concentradas em áreas historicamente associadas ao trabalho reprodutivo. Além de estarem menos presentes nas nos postos diretivos ou nos postos de poder e decisão. Além disso, elas relatam ter poucas políticas para poder facilitar essa inclusão no mercado de trabalho, no setor público, e em especial, políticas que facilitem a conciliação do trabalho doméstico e de cuidados com o trabalho produtivo na máquina pública. E aí, diante desse cenário, o que podemos fazer? Podemos adotar novas políticas que contribuam para a construção de um setor público mais inclusivo e mais diverso. E sabemos que temos um primeiro ganho porque teremos mais mulheres, então ganhamos em democracia, ganhamos em representatividade. Mas quando a gente olha para as evidências, a gente vê também que a gente ganha resultados. Então a presença de mais mulheres no setor público está associada a muitos resultados positivos para o desenvolvimento de políticas públicas e para a entrega de serviços e bens públicos de maior qualidade e mais inclusivos para a sociedade de maneira geral.”


Aline: O artigo do Movimento Pessoas à Frente você pode ler em nexojornal.com.br/pontofuturo. E lembrando que a newsletter diária que o Nexo envia gratuitamente toda noite mudou. A Durma Com Essa agora se chama Nexo Hoje e chega no seu email com design e conteúdo diferentes. E tem mais uma novidade: nela e no site do Nexo você agora acessa a transcrição do episódio do Durma com Essa. Se você ainda não assina a newsletter, é só se cadastrar em nexojornal.com.br.


Conrado: Das brigas, incêndios e acusações de um partido em pé de guerra, passando pelos 60 anos do discurso de Jango na Central do Brasil e fechando com a questão da ascensão das mulheres no setor público, Durma com Essa.


Aline: Com roteiro, produção e apresentação de Conrado Corsalette, edição de texto e apresentação de Aline Pellegrini, participações de Mariana Vick e Ana Diniz, produção de arte de Mariana Simonetti, edição de áudio de Pedro Pastoriz e colaboração de Pedro Bardini, termina aqui mais um Durma com Essa. Amanhã tem mais. Até!

NEXOJORNAL

 


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