terça-feira, 11 de abril de 2017

Pesquisadores investigam ligação de casos de câncer com gás radioativo no RN



Fonte: Novo Notícia 

Mutações genéticas, gases radioativos e insetos resistentes à radioatividade. O que pode parecer o enredo de uma história de ficção é, na realidade, alvo de uma investigação científica no interior do Rio Grande do Norte.

Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) estão investigando a relação do grande número de casos de câncer registrados na cidade de Lajes Pintadas, na Borborema potiguar, e a presença de um gás radioativo abundante na região. De acordo com resultados preliminares, um número alto de mutações celulares foi encontrado no organismo da população local.

De acordo com Viviane Amaral, professora do Departamento de Biologia Celular e Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), as alterações celulares foram encontradas em amostras colhidas nos anos de 2014 e 2016. Essas ocorrências, segundo a professora, podem estar relacionadas ao alto índice de câncer e de abortos espontâneos registrados na região.

“As alterações celulares encontradas são a nível nuclear. Ou seja, alterações muito sutis na sequência de DNA dessas pessoas. Essas alterações, no entanto, podem fazer com que as células passem a funcionar mal e possam estar relacionadas a um processo cancerígeno”, explica Viviane.

Apesar de não ter relação comprovada com os casos de câncer da região, a descoberta das alterações celulares é considerada relevante pelos cientistas para explicar o alto índice registrado na população local. Segundo Viviane, Lajes Pintadas tem, por ano, o mesmo número de novos casos da doença que Natal. Porém, enquanto a capital tem mais de 800 mil habitantes, a cidade do interior potiguar tem pouco mais de quatro mil.

Outro dado importante que ainda está sendo melhor estudado pelos cientistas é a relação das mutações de DNA com o número de abortos espontâneos encontrados no município.

“Conversando com a população, descobrimos que havia um número considerável de mulheres com histórico de aborto. Amostras foram colhidas de mulheres que apresentavam esse histórico e de outras mulheres que nunca haviam abortados. O que nossos resultados preliminares apontam é que as mulheres com histórico de aborto tinham quase quatro vezes mais alterações celulares que as que nunca abortaram”, conta Viviane.

De acordo com Viviane, os dados não são suficientes para comprovar que os casos de câncer ou os abortos são ocasionados por essas mutações genéticas. No entanto, o próprio processo de investigação filtra as informações para evitar que outros fatores interfiram nos resultados.

“A gente sempre aplica um questionário para saber se a pessoa fuma, se ela bebe… tem vários fatores que podem levar a pessoa a ter uma predisposição ao câncer. Só que essas pessoas a gente exclui. A gente trabalha com pessoas que, dentro do questionário, não tem uma exposição com outros elementos, para justamente tentar remover essas variáveis”, diz a professora.

A exclusão de fatores de risco tem como objetivo identificar se o efeito de um gás radioativo abundante na região pode ser o responsável pelas alterações celulares e, consequentemente, pelos índices de aborto e câncer registrados.

Era 2005 quando o professor Thomas Campos, do Departamento de Geologia e coordenador do Laboratório de Radiação Natural (Larana) da UFRN, resolveu mapear a incidência do radônio, um gás incolor, inodoro, invisível e radioativo no interior do Rio Grande do Norte. Apontado como segunda maior causa de câncer de pulmão do mundo – atrás apenas do tabaco – pela Organização Mundial de Saúde (OMS), o radônio ainda era pouco estudado no estado.

“Quando começamos, a questão do radônio ainda era muito desconhecida no Rio Grande do Norte. Havia um estudo da década de 1990, que mapeava algumas regiões do estado, mas não essas cidades da Borborema. Como a região é rica em pegmatitos e os pegmatitos liberam radiação alfa e gama e radônio, fomos para a região”, recorda Thomas.

Pegmatitos
Os pegmatitos citados pelo professor são rochas ígneas, formadas por minerais que são decaimentos do urânio. De natureza radioativa, os pegmatitos liberam radiação. No processo de decaimento, geram inclusive o gás radônio. Além da formação geológica, dados de saúde da população foram levados em conta na hora de escolher as cidades-alvo do estudo.
“No começo, escolhemos Lucrécia por causa do histórico de casos de câncer na cidade. Existia até um dito popular por lá que dizia que as pessoas só morriam de câncer ou acidente de moto. Lajes Pintadas, localizada a 140 KM da capital, só entrou quando soubemos do caso de uma criança que nasceu sem cérebro. Sabemos que os pegmatitos liberam radiação gama e radônio e esses agentes podem causar danos neurológicos”, explica Campos.


Na pesquisa, foram medidos os níveis de radônio dentro de casas selecionadas nas duas cidades. Um medidor de radiação foi instalado embaixo das camas por três meses e registrou a concentração de radônio no interior dos cômodos. No caso de Lajes Pintadas, o nível de radônio registrado é mais de 40 vezes superior à concentração considerada como segura pela Organização Mundical de Saúde (OMS).

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