Foto: Evan Vucci / AP
Uma reunião da Otan foi realizada nesta quarta-feira, 21, na qual altos oficiais militares dos estados-membros da aliança discutiram um acordo entre a Dinamarca e os Estados Unidos sobre a Groenlândia. Segundo três diplomatas familiarizados com a discussão, no encontro foi discutida a possibilidade da Dinamarca conceder aos Estados Unidos soberania sobre pequenas porções de terra na Groenlândia, onde os EUA poderiam construir bases militares.
Os diplomatas falaram sob condição de anonimato para discutir um assunto delicado e disseram que a ideia era algo que o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, vinha buscando. Dois dos diplomatas, que participaram da reunião, compararam a proposta às bases do Reino Unido no Chipre, que são consideradas território britânico.
Os diplomatas não sabiam se a ideia fazia parte da estrutura anunciada pelo presidente Donald Trump. Questionada sobre o acordo e seu conteúdo, a Otan afirmou em um comunicado que “as negociações entre a Dinamarca, a Groenlândia e os Estados Unidos prosseguirão com o objetivo de garantir que a Rússia e a China nunca ganhem influência – econômica ou militar – na Groenlândia”.
Trump não forneceu detalhes imediatos sobre o acordo e não afirmou que os Estados Unidos seriam donos da Groenlândia, mesmo quando questionado diretamente sobre a questão por um repórter em Davos, logo após a publicação do anúncio. Rutte e os líderes da Dinamarca também não divulgaram detalhes. O gabinete do primeiro-ministro dinamarquês não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.
A notícia sobre o acordo surgiu horas depois de Trump ter dito a líderes europeus em Davos, na Suíça, que não aceitaria nada menos do que a posse da Groenlândia pelos Estados Unidos — ao mesmo tempo que retirava a ameaça de invasão. Trump havia prometido graves consequências econômicas e de segurança para a Europa caso não conseguisse o que queria.
Mais cedo, dirigindo-se a uma sala repleta de chefes de Estado, bilionários e outros líderes mundiais, Trump afirmou repetidamente que os Estados Unidos precisavam da Groenlândia para fins de segurança nacional. Ele disse que somente os Estados Unidos eram fortes o suficiente para defender a Groenlândia de ameaças externas e que defendê-la só faria sentido se os EUA fossem donos do território.
Ele pediu “negociações imediatas” para discutir a transferência da propriedade da ilha semiautônoma da Dinamarca para os Estados Unidos e ridicularizou os países europeus, afirmando que eles estão irreconhecíveis em comparação com sua antiga beleza e dependentes dos Estados Unidos. “Sem nós, a maioria desses países nem funciona”, disse Trump. “Provavelmente não conseguiremos nada a menos que eu decida usar força excessiva, onde, francamente, seríamos imparáveis”, ele acrescentou.
“Mas eu não farei isso. Essa é provavelmente a declaração mais importante, porque as pessoas pensavam que eu usaria a força. Eu não preciso usar a força. Eu não quero usar a força. Eu não usarei a força. Tudo o que os Estados Unidos estão pedindo é um lugar chamado Groenlândia.”
Pouco depois, porém, Trump fez ameaças explícitas e implícitas aos líderes europeus caso não atendessem aos seus desejos. Ele lembrou à plateia que havia imposto unilateralmente taxas sobre as importações para os Estados Unidos provenientes de países da Europa e de outros continentes, tendo já ameaçado aumentar as tarifas sobre a Dinamarca e diversos países europeus que defendem a soberania dinamarquesa sobre a ilha.
Como costuma acontecer em suas relações com o presidente americano, alguns líderes europeus reagiram ao que consideraram o ponto mais positivo do discurso — sua promessa de não enviar tropas — e expressaram esperança de que pudessem chegar a um acordo sobre o futuro da Groenlândia.
Rasmus Jarlov, presidente da comissão de defesa do Parlamento dinamarquês, afirmou em entrevista que “já ouvimos coisas muito piores” de Trump.
“Fico feliz que ele esteja descartando o uso da força militar”, disse Jarlov. “Não vi em seu discurso de hoje uma escalada. Ele insiste que quer a Groenlândia, mas isso não é novidade. É claro que continuamos insistindo que não vamos entregar a Groenlândia.”
Em seu discurso, Trump deixou pouca margem para concessões. Muitos líderes europeus têm afirmado que não podem aceitar ceder a posse da Groenlândia aos Estados Unidos, mas também dizem estar abertos a quase qualquer outro acordo que expanda a presença americana na região. Nesta quarta-feira, Trump reiterou que isso não seria suficiente.
“É preciso ter a posse para defendê-la”, disse o americano. Um instante depois, acrescentou: “Quem diabos quer defender um contrato de licença ou um arrendamento?”/The New York Times.
ESTADÃO
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